Múltis mais cautelosas quanto ao País

Empresas internacionais hoje buscam sobretudo manter o que já está instalado no País, não se arriscando a novos projetos

O Estado de S.Paulo

26 de março de 2019 | 04h00

Têm sido expressivos nos últimos anos os empréstimos de matrizes de multinacionais ou de suas filiais em outros países para suas subsidiárias no País, conhecidos como empréstimos intercompanhias. O que surpreende, como mostra um exame mais acurado das contas externas, é o fato de que tais operações tenham quintuplicado em 2018, alcançando US$ 32,3 bilhões, em comparação com os US$ 6,2 bilhões de 2017.

Em parte, a explicação mais óbvia é de que, para poderem tocar seus negócios aqui, no Brasil, as subsidiárias de múltis são naturalmente levadas a captar recursos no exterior por meio de suas matrizes ou outras filiais, a taxas de juros bem menores do que as cobradas internamente.

Isso é particularmente verdadeiro com relação à indústria, beneficiária de 2/3 desses recursos e que foi muito prejudicada com o desaquecimento do mercado interno, tendo ainda de lidar com uma alta ociosidade. Segue-se o setor de serviços, embora em proporção bem menor.

Há indicações, porém, de que outros fatores se fizeram sentir para justificar um salto tão grande dos empréstimos intercompanhias de um ano para outro. É significativo que, em 2018, enquanto avançavam rapidamente essas transferências, caía 12,5% o volume de recursos do exterior destinados à aquisição do controle, fusões ou participações no capital de empresas em operação no País. Esse total, que chegou a US$ 64 bilhões em 2017, recuou para US$ 56 bilhões no ano passado, ou seja, US$ 8 bilhões a menos.

Há uma evidente correlação entre esses dois movimentos, sugerindo que as múltis estão mais cautelosas, evitando comprometer-se com uma expansão no Brasil, que só muito lentamente está saindo de uma recessão. O mercado interno ainda está deprimido e o País não avança como plataforma de exportação. Como notam analistas, muitas empresas internacionais hoje buscam sobretudo manter o que já está instalado no País, não se arriscando a novos projetos.

Embora algumas empresas tenham recentemente deixado o Brasil ou reduzido suas operações aqui, seria exagero dizer que as múltis estejam desistindo do País. Contudo, como observa o economista Mauro Rochlin, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), “o investidor estrangeiro trabalha com um sinal amarelo” no que diz respeito a novos investimentos no Brasil.

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