O desempenho do comércio com os Estados Unidos

É possível que, quando a vacinação tiver avançado, o comércio bilateral entre o Brasil e os americanos ganhe mais dinamismo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2021 | 03h00

A comparação dos resultados comerciais que o Brasil alcançou no ano passado com seus dois maiores parceiros, a China e os Estados Unidos, traz uma ironia política.

Frequentemente criticada pelo governo de Jair Bolsonaro – que não poucas vezes desdenhou da vacina chinesa contra a covid-19 e com frequência menosprezou seu papel na economia mundial –, a China aumentou suas importações de produtos brasileiros num ano em que o resto do mundo reduziu suas compras externas. Já os Estados Unidos, na época governados por Donald Trump – de quem Bolsonaro se declarou admirador incondicional –, cortaram em quase 30% suas compras de produtos brasileiros em 2020.

Esses resultados afetam de modo diferente a economia brasileira – e isso nada tem a ver com escolhas políticas dos governantes. O fato de a China importar mais produtos brasileiros mesmo com a pandemia afetando a economia mundial é, sem dúvida, auspicioso. Mas as perdas das exportações para os Estados Unidos têm significado especial. Os EUA são, há muitos anos, grande importador de bens industrializados do Brasil.

Ao longo da década passada, não raro a corrente de comércio (soma de exportações e importações) entre o Brasil e os Estados ficou próxima de US$ 60 bilhões, ou até ultrapassou esse valor. Em 2019, por exemplo, alcançou US$ 59,8 bilhões. Mas, em 2020, ano marcado pela pandemia, encolheu quase um quarto, ficando em US$ 45,6 bilhões (redução de 23,8%). Em anos recentes, só em 2009, por causa da crise que abalou o sistema financeiro mundial, ficou abaixo do resultado do ano passado.

A longa parceria econômica entre o Brasil e os Estados Unidos e o estoque dos investimentos recíprocos acumulados ao longo de muitas décadas de relacionamento produtivo para ambos os lados reduzem fortemente a influência de fatores políticos nas decisões empresariais nos dois países. São razões econômicas que balizam as decisões das empresas de investir, vender, comprar, produzir.

É possível, e provável, que, com a recuperação da economia mundial quando a vacinação tiver avançado o suficiente para estimular a produção, também o comércio bilateral entre o Brasil e os Estados Unidos ganhe dinamismo. Se idiossincrasias políticas não atrapalharem, o quadro poderá melhorar ainda mais.

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