O impacto do vírus sobre o capital humano

Perda de renda das famílias com parentes vitimados pela covid-19 passa de R$ 14,3 bilhões por ano, mostra FGV

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 03h00

A perda de mais de 570 mil brasileiros por covid-19 é inestimável. Para suas famílias, além da dor do luto, há o impacto sobre a renda. Muitas perderam o seu principal provedor e entraram na faixa de pobreza. Pelas estimativas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), a perda de renda das famílias com parentes vitimados pelo vírus passa de R$ 14,3 bilhões por ano.

O cálculo considera a renda do trabalho das vítimas em idade produtiva somada à de aposentados. Diferentemente das receitas perdidas por desemprego temporário, estas foram irremediavelmente perdidas.

Ainda que o levantamento não faça estimativas diferenciadas por faixa de renda, é certo que o impacto é muito maior para os mais pobres.

Morando em piores condições sanitárias, com mais dificuldade de trabalhar em casa e menos acesso a bons tratamentos hospitalares, os pobres apresentaram taxas de contágio e mortalidade proporcionalmente maiores, como maiores foram entre eles o desemprego e as reduções de salário ou de rendas do mercado informal. A recuperação dos postos de trabalho menos qualificados tomará mais tempo, e as famílias pobres, que consomem proporcionalmente mais com necessidades básicas, como moradia e alimentação, foram mais impactadas pela inflação.

Além disso, a perda prematura de aposentados afeta especialmente as famílias pobres, que muitas vezes têm na aposentadoria dos idosos uma importante fonte de renda.

Tudo isso evidencia a importância do auxílio emergencial e do fortalecimento de programas sociais, como o Bolsa Família. Mas mecanismos de transferência de renda não bastarão para repor a perda de capital humano. “Todas essas pessoas vitimadas tinham um certo conhecimento, certas habilidades adquiridas ao longo da vida, que utilizando e transmitindo para colegas poderiam, por muito tempo ainda, contribuir para gerar uma renda para si, para eventuais dependentes e, portanto, para o País”, dizem os pesquisadores.

Como aponta Claudio Considera, do Ibre, “tem tanta gente desempregada, mas essas pessoas não necessariamente serão capazes de substituir no mercado de trabalho aqueles que morreram”. A reposição da massa de habilidades e conhecimentos perdidos dependerá de bons programas de educação e capacitação.

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