O recorde da dívida das famílias

Há indicações de que as famílias estão encontrando mais dificuldades para honrar seus compromissos financeiros

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2021 | 03h00

O recorde do endividamento das famílias é a mais recente evidência do impacto da pandemia nos orçamentos domésticos. Em março, último dado disponível, a dívida das famílias com o sistema financeiro chegou a 58% de sua renda anual, de acordo com dados das Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas pelo Banco Central (BC).

Esse porcentual é calculado com base nas informações fornecidas pelas instituições financeiras ao BC e nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aferidos na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua e na Pesquisa Mensal de Emprego. Por isso, tem uma certa defasagem.

O resultado é o mais alto desde 2005, quando o BC passou a divulgar esses dados. Em julho do ano passado, quando surgiam sinais mais fortes de que o pior efeito da pandemia de covid-19 estava passando, a relação dívida/rendimento das famílias havia superado 50% pela primeira vez.

O recorde de março é resultado da combinação de dois aspectos da crise econômica provocada pela pandemia.

De um lado, ela levou ao aumento do desemprego e à redução da renda real média e do total de rendimentos pagos. Isso fez crescer as dificuldades financeiras das famílias.

De outra parte, entre as medidas tomadas pelo governo para conter o impacto da pandemia sobre a economia está o estímulo ao crédito, o que fez crescer a oferta de financiamentos, a custos bastante toleráveis para os tomadores.

A comparação com o nível de endividamento das famílias um ano antes dá uma boa ideia do impacto da pandemia sobre o orçamento das famílias: em março de 2020, era de 49,4%, 8,6 pontos porcentuais abaixo do nível deste ano. 

Mesmo que do total das dívidas bancárias das famílias sejam descontadas as dívidas imobiliárias – em geral de valor elevado, comprometendo fatia expressiva do orçamento doméstico, e de vencimento mais longo –, o nível de endividamento continua alto, de 37,5% em março, também recorde da série histórica do BC.

Há indicações de que as famílias estão encontrando mais dificuldades para honrar seus compromissos financeiros. O comprometimento da renda mensal com as prestações passou de 30,0% em março do ano passado para 30,5% neste ano. Já a inadimplência passou de 2,9% para 3,1% das famílias entre abril e maio deste ano.

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