Oportunidades e riscos do trabalho por aplicativos

De um lado, os aplicativos trazem alternativas de ocupação; de outro, oferecem pouco poder de barganha para quem trabalha

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2021 | 03h00

Empurrados, de um lado, pelo desemprego e puxados, de outro, pelas oportunidades que o isolamento social acabou gerando, milhões de brasileiros recorreram aos aplicativos para obter renda. Outros viram nos aplicativos a possibilidade de manter seus negócios em tempos de crise sanitária. É um fenômeno que pode, em parte dos casos, resultar na precarização do trabalho e também, em boa proporção, consolidar uma nova característica do mercado.

Para parte dos que recorreram aos aplicativos para ter uma ocupação, a renda que obtém deles é parcial; para outra, total. Em qualquer dos casos, porém, os aplicativos abriram uma oportunidade para famílias cuja renda proporcionada por ocupações tradicionais foi duramente comprimida.

No cenário marcado pela extinção de postos de trabalho, como mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do IBGE, e pelo fechamento das portas de milhares de restaurantes e outros estabelecimentos comerciais, impedindo o atendimento presencial, um contingente de 11,4 milhões de pessoas recorreu aos aplicativos para manter sua ocupação.

Parte dessas pessoas passou a operar com encomendas ou compras feitas por meio de aplicativos; outra parte passou a entregar os bens assim demandados. Empresas que já utilizavam aplicativos para realizar parte de seus negócios intensificaram seu uso.

Esse número foi aferido por pesquisa do Instituto Locomotiva e obtido pela reportagem do Estadão. Ele indica que cerca de 20% da população adulta, cerca de 32,4 milhões de pessoas, utiliza algum tipo de aplicativo para trabalhar. Em fevereiro do ano passado, a parcela correspondia a 13%.

Há, decerto, uma fatia de subemprego nesses números. Mas não é só isso. “Os aplicativos ajudaram muito para que diversas empresas conseguissem se manter em pé”, diz o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles. “Houve um processo forte de digitalização na pandemia, e esse é um caminho sem volta.”

O professor da FEA-USP e especialista em mercado de trabalho Wilson Amorim também vê uma realidade incontornável, mas adverte que ela precisa ser analisada por dois ângulos. De um lado, os aplicativos trazem alternativas de ocupação; de outro, oferecem pouco poder de barganha para quem trabalha dessa forma.

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