Piora das contas cambiais não deve ser menosprezada

Não se pode falar em sinal de alarme, mas a conta corrente do balanço de pagamentos – cujo resultado é acompanhado com atenção pelos especialistas, pois sintetiza o estado das contas cambiais – mostra tendência de ampliação do déficit.

Editorial Econômico, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2019 | 05h00

Incluído, nos últimos três anos, entre os resultados mais positivos da política macroeconômica, o balanço de pagamentos dá sinais de piora nos últimos meses, seja em razão do enfraquecimento do superávit comercial, seja em face da deterioração do cenário global, com redução dos fluxos internacionais de recursos para o País. Não se pode falar em sinal de alarme, mas a conta corrente do balanço de pagamentos – cujo resultado é acompanhado com atenção pelos especialistas, pois sintetiza o estado das contas cambiais – mostra tendência de ampliação do déficit.

Em setembro, segundo o Banco Central (BC), houve déficit de US$ 3,5 bilhões nas transações correntes, valor que atingiu US$ 21,9 bilhões nos primeiros nove meses de 2019 e US$ 37,4 bilhões em 12 meses. São montantes substancialmente mais altos do que os observados nos déficits de US$ 0,2 bilhão de setembro de 2018, de US$ 18,6 bilhões de janeiro a setembro de 2018 e de US$ 25,7 bilhões em 12 meses, até setembro de 2018.

O déficit corrente em 12 meses aumentou 53% como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), de 1,34% para 2,05%, entre os meses de setembro de 2018 e de 2019.

Mais importante é que a relação déficit/PIB não se estabilizou e poderá até crescer, dado o estreitamento do comércio exterior. O superávit da balança comercial entre os primeiros nove meses de 2018 e de 2019 caiu quase US$ 10 bilhões, de US$ 38,1 bilhões para US$ 28,6 bilhões. 

A exemplo de outros países em desenvolvimento, a rolagem das dívidas tem sido mais lenta. Em outubro, até a terça-feira (22/10), a taxa de rolagem dos empréstimos era de 57% e dos títulos, de 50%.

O dado mais positivo – e que tem características estruturais – está no ingresso de investimentos diretos no País (IDP), de US$ 6,3 bilhões em setembro, acima do esperado pelo BC. O IDP foi de US$ 47,5 bilhões nos primeiros nove meses do ano e de US$ 70,4 bilhões em 12 meses, suficientes para financiar o déficit corrente. Dos investidores externos também deverão vir volumosos ingressos no processo de cessão onerosa do excedente de petróleo das áreas do pré-sal, mas esse é um fator esporádico.

A questão central é se o déficit corrente cresce em razão do aumento da atividade interna. Caso se confirme, será uma explicação confortadora, pois refletirá a esperada retomada.

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