Por que cresce a dívida das famílias

Além de crescer pouco, ou até se reduzir, a renda nominal disponível nos orçamentos familiares está sendo corroída silenciosamente pela inflação

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 03h00

Nunca a proporção de famílias com dívidas esteve tão alta como em agosto. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que o aumento da contratação de dívidas pelas famílias começou no último trimestre do ano passado, alcançou o recorde histórico de 72,9% em agosto e mantém forte tendência de crescimento.

Há fatores positivos que impulsionam o aumento da dívida. É boa a oferta de crédito, a custo ainda atrativo para os tomadores de empréstimo, apesar da alta nos últimos meses, e o alívio das medidas restritivas exibidas para o combate à pandemia dá mais confiança às pessoas, o que estimula o consumo.

É provável, porém, que a combinação de outros fatores, menos positivos para a economia em geral que os anteriores, também pode estar fazendo crescer a dívida das famílias como proporção de suas rendas. Persistem muitas fragilidades no mercado de trabalho, com altas taxas de desocupação e dificuldades para a preservação da renda, o que tem impacto sobre o rendimento total disponível para a cobertura das despesas familiares.

Além de crescer pouco, ou até se reduzir, a renda nominal disponível nos orçamentos familiares está sendo corroída silenciosamente por um mal de que parte dos brasileiros sofreu duramente há poucas décadas. Trata-se da inflação em alta, que, diante da fragilidade óbvia do mercado de trabalho, não está sendo repassada para os salários. Compra-se menos com a mesma quantidade de reais. Isso é particularmente evidente no caso de alguns itens essenciais na mesa das famílias brasileiras, sobretudo as de renda mais baixa.

Recorre-se crescentemente a dívidas para cobrir despesas domésticas. A proporção de famílias com dívidas está 5,5 pontos porcentuais acima do índice de agosto de 2020 e 7,8 pontos acima do de fevereiro de 2020, antes, portanto, da pandemia. A modalidade de dívida predominante é o cartão de crédito, por muitas razões o tipo de endividamento menos recomendado, dada a facilidade de sua contratação e seu custo muito alto (é a mais cara de todas as modalidades).

Nesse cenário de dificuldades financeiras das famílias, há pelo menos um aspecto tranquilizador: a inadimplência – isto é, atraso nos pagamentos – mantém-se estável.

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