Rompimento entre Boeing e Embraer deve ir à Justiça

O encerramento das negociações não chega a ser uma surpresa: analistas já alertavam para essa possibilidade

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2020 | 03h00

Chega ao fim o projeto de parceria comercial entre a Boeing e a Embraer. Anunciado em julho de 2018, o acordo para criação da Boeing Brasil Comercial, joint venture que teria participação de 80% da companhia americana e 20% da brasileira, era tido como um dos mais importantes já firmados no setor aéreo. No dia 25/4, 24 horas depois do prazo final para distrato, a Boeing anunciou que encerrou as negociações para comprar a divisão de aeronaves comerciais da Embraer, negócio estimado em US$ 4,2 bilhões.

A empresa americana atribuiu à Embraer a responsabilidade pelo fim do acordo. Em nota, o presidente da Boeing para a parceria com a Embraer, Marc Allen, afirmou que “a Boeing trabalhou diligentemente nos últimos dois anos para concluir a transação com a Embraer” e que há vários meses sua empresa tem “mantido negociações produtivas a respeito de condições do contrato, que não foram atendidas”. Por isso, prosseguiu Allen, a Boeing “exerceu seu direito de rescindir o contrato após a Embraer não ter atendido as condições necessárias” para prosseguimento do negócio. Curiosamente, a Boeing não informou que condições comerciais não teriam sido cumpridas pela Embraer, causa alegada para o rompimento do contrato e, pois, informação de alta relevância.

Na verdade, dois fatores combinados contribuíram para um distrato que se afigura litigioso: o severo abalo nos negócios da Boeing provocado por acidentes fatais envolvendo sua principal aeronave, o 737 MAX, e a crise decorrente da pandemia de covid-19 que atingiu em cheio o setor aéreo.

O encerramento das negociações não chega a ser uma surpresa. Analistas de mercado há meses já alertavam para essa possibilidade. Um deles disse ao Estado que “a prioridade da Boeing deixou de ser o acordo com a Embraer e passou a ser a sua própria sobrevivência”. Tanto os acidentes com os 737 MAX, que mataram 346 pessoas, como os efeitos da pandemia de covid-19 minaram a capacidade da Boeing de honrar o pagamento dos US$ 4,2 bilhões envolvidos na transação.

O presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, disse estar “surpreso e desapontado” com a decisão da Boeing. Neto fez questão de assegurar que a empresa tem “liquidez suficiente e acesso a fontes de financiamento para alavancar a continuidade de seus negócios”. Mas não estão descartadas a abertura de um processo judicial contra a Boeing, a busca de auxílio financeiro do Tesouro ou a procura por novos parceiros para a divisão de aeronaves comerciais.

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