Sobrevivência sem renda do trabalho

As famílias nessas condições sobrevivem financeiramente graças a programas como o Bolsa Família, o auxílio emergencial e benefícios previdenciários

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 03h00

Embora sintetize de forma dramática o impacto da pandemia sobre a vida das famílias de renda baixa e sua persistência, bem como o decisivo papel que programas de transferência de renda desempenham para a sobrevivência dessa parcela da população, um dado sobre as rendas do trabalho – mais especificamente, sobre sua ausência – nem sempre tem despertado a atenção que merece. Trata-se do aumento expressivo da proporção de lares em que, por causa da pandemia, nenhum de seus membros tem ocupação que lhe proporcione renda.

Antes da pandemia, os dados estatísticos do IBGE mostravam que em 25% dos domicílios nenhum morador dispunha de renda do trabalho. Essa proporção saltou para 31,6% no segundo trimestre do ano passado e, desde então, vem mostrando tendência de baixa. Mas é um recuo pequeno, pois, no segundo trimestre de 2021, ainda estava em 28,5%.

Esses números estão no estudo sobre o mercado de trabalho feito pelo analista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Sandro Sacchet de Carvalho e publicado na Carta de Conjuntura da instituição.

A alta, no início da pandemia, foi explosiva; a recuperação é muito lenta. “Mesmo com a melhora recente, a proporção (de lares sem renda do trabalho) ainda é mais alta que no período pré-pandemia”, diz o autor. A fatia ainda é mais de 3 pontos porcentuais maior do que a observada no início do ano passado.

As famílias nessas condições sobrevivem financeiramente graças a programas como o Bolsa Família, agora redesenhado pelo governo Bolsonaro e com novo nome (Auxílio Brasil), o auxílio emergencial (que tem data para terminar) e benefícios previdenciários. Elas são formadas por 46 milhões de pessoas. No fim de 2019, eram 36,5 milhões.

Outro impacto da pandemia sobre o orçamento das famílias foi o aumento da proporção daquelas consideradas de renda muito baixa (abaixo de R$ 1.650,50 mensais). Representavam 25,8% dos domicílios antes da pandemia e hoje são 27,9%.

Curiosamente, o rendimento médio habitual domiciliar das famílias mais pobres chegou a aumentar na pandemia – não o suficiente para tirá-las da classificação mais baixa quanto ao rendimento –, mas isso se deveu a uma piora qualitativa do mercado de trabalho, provocada pelo aumento do trabalho informal.

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