Tendências dos investimentos da China no Brasil

Apesar de oscilações nos valores dos investimentos, da retórica anti-China do atual governo e da contração na pandemia, os dados revelam mais continuidade do que ruptura

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2021 | 03h00

Nos últimos 15 anos, a China, além de se tornar o maior parceiro comercial do Brasil, se consolidou como um dos seus principais investidores. Entre 2007 e 2020, segundo relatório Investimentos Chineses no Brasil, do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), os aportes chineses em 176 empreendimentos no Brasil totalizaram US$ 66,1 bilhões, sendo 48% destinados à energia elétrica. O crescimento da exportação de commodities favoreceu ainda investimentos em petróleo e gás (28%), extração de minerais metálicos (7%), indústria manufatureira (6%), infraestrutura (5%) e agropecuária (3%).

São Paulo se destacou, com 31% dos projetos confirmados. Mas há projetos em 23 unidades da Federação, e em 2019 o Nordeste chegou a atrair o maior número de projetos. Com o choque pandêmico, os investimentos chineses caíram 74% em 2020, ficando em US$ 1,9 bilhão. Por outro lado, o comércio bilateral atingiu o recorde de US$ 102 bilhões, e em 2019 o valor dos investimentos cresceu 117%, somando US$ 7,3 bilhões.

Desde 2007, pondera o CEBC, “houve mudanças no perfil de empreendimentos que atraíram o interesse de empresas chinesas e oscilações no valor dos investimentos em razão de políticas domésticas adotadas por Pequim ou de turbulências no cenário internacional”. Apesar dessas oscilações, da retórica anti-China do atual governo e da contração na pandemia, os dados, segundo o autor da pesquisa, Tulio Cariello, revelam mais continuidade do que ruptura.

O setor de eletricidade seguirá sendo um eixo importante. Mas a experiência da China em projetos de construção civil e indústria oferece oportunidades para a diminuição de gargalos na infraestrutura que emperram a produtividade brasileira. No longo prazo, um setor ainda insípido, mas de grande potencial, são as novas fronteiras da tecnologia da informação, em áreas como inteligência artificial, economia digital, redes 5G ou cidades inteligentes.

As relações econômicas entre Brasil e China provaram-se resilientes à belicosidade ideológica do governo. Mas este hiato no bom histórico diplomático sino-brasileiro torna mais, não menos importante o engajamento de outros setores da sociedade, como o empresariado, a Academia ou o terceiro setor, na construção de pontes em áreas como cultura e pesquisa. Além dos seus benefícios intrínsecos, elas fomentarão mais fluidez no diálogo com os investidores.

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