11 de Setembro e o fim da era das intervenções militares

Neste quadro de grandes transformações, qual o lugar do Brasil no mundo na defesa de seus interesses?

Rubens Barbosa, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2021 | 03h00

Com o fim da guerra fria, em 1989, restou uma única superpotência. Os EUA, imperial, moldaram o que chamaram de nova ordem internacional e impuseram ações unilaterais. Os ataques contra as torres gêmeas de Nova York e ao Pentágono, em Washington, em 11 de setembro de 2001 colocaram fim a essa era. A quebra do mito da invencibilidade norte-americana e o primeiro ataque ao território americano desde 1814 afetaram profundamente a sociedade local e explicam, na política externa, a era de Guerra ao Terrorismo, iniciada com a invasão do Afeganistão contra o grupo islâmico Taleban para destruir os jihadistas da Al-Qaeda, que assumiu a responsabilidade pelos ataques de 11 de setembro, e para buscar, vivo ou morto, Osama Bin Laden.

A ação antiterrorismo islâmico foi ampliada pela invasão do Iraque, justificada pelas fake news de que Saddam Hussein estava associado à Al-Qaeda e possuía arsenal de armas de destruição em massa. A ocupação do Afeganistão e do Iraque, por inspiração neoconservadora do presidente George W. Bush, gerou alteração na Lei de Segurança Nacional, prevendo ataques preventivos, mudança de regime (regime change) e reconstrução nacional (nation building), segundo os valores e as instituições norte-americanos (democracia, livre-mercado, sistema político), sem levar em conta a cultura e as peculiaridades desses países. A política de reconstrução nacional foi aplicada em 19 países, entre os quais Síria, Líbia e Somália, com intervenções militares (drones) e de inteligência em 85 países que custaram milhares de vidas aos soldados americanos e aos civis desses países e gastos de mais de US$ 8 trilhões em 20 anos.

Contrário à guerra no Afeganistão como vice-presidente de Barack Obama, Joe Biden, durante a campanha presidencial de 2019, prometeu a retirada das Forças Armadas dos EUA daquele país. Eleito presidente, manteve a promessa de campanha e a decisão de seu antecessor, Donald Trump, de retirar os militares até 31 de agosto. Em histórico pronunciamento, pôs fim à mais longa guerra da história americana. Ao anunciar que estava começando um novo capítulo da política externa, Biden declarou que a saída do Afeganistão representava o fim de uma era que se iniciou em 2001. Contrariando Lincoln, que dizia que “princípios importantes devem ser inflexíveis”, Biden seguiu o filósofo alemão que observou “não haver fatos eternos, como não há verdades absolutas”. Nas palavras do presidente dos EUA, “não mais haverá intervenção militar com a mobilização de tropas e tentativa de reconstrução de nações em outros países do mundo”. A pressão da política interna num país dividido e radicalizado consagrou a atitude de isolamento da maior potência global, com consequências e novas tensões no cenário internacional.

A afirmação de que os EUA não mais promoverão intervenções militares para a mudança de regime e a reconstrução nacional é tão histórica quanto a de John Kerry, secretário de Estado do governo Obama, que declarou, em pronunciamento na Organização dos Estados Americanos (OEA), que as intervenções militares americanas na América Latina não mais se repetiriam, porque o governo dos EUA estava pondo um fim na famosa Doutrina Monroe, contra a presença e influência europeia nos países da região. As intervenções militares de Washington para a mudança de regime estiveram vinculadas aos interesses americanos de combate ao terrorismo, com todos os excessos (gastos, corrupção, tortura e ataque à população civil) ao redor do mundo, enquanto a Doutrina Monroe foi utilizada para defender interesses ideológicos (Cuba, República Dominicana, Nicarágua, Colômbia, Chile) e econômico-comerciais (Granada, Panamá, El Salvador, Guatemala).

Com o término da Guerra ao Terrorismo, simbolicamente representado pela desordenada retirada das tropas do Afeganistão, a nova estratégia geopolítica de Washington deverá ser alterada. Na política externa, a prioridade do Oriente Médio deverá passar para o Sudeste da Ásia, com foco na crescente disputa tecnológica, comercial e, no futuro, militar com a China, considerada “adversária” pelo establishment norte-americano. Internamente, a preocupação com a segurança nacional passará a ser o combate ao terrorismo interno. O isolacionismo dos EUA, com o país voltado para dentro, reforça a possibilidade de ações radicais da direita conservadora e a possibilidade de ações de lobos solitários próximos de organizações terroristas no exterior.

A nova era que começa em 2021 poderá representar a perspectiva de guerra contra a China em substituição à Guerra ao Terror? O relacionamento entre os EUA e a China vem se deteriorando nos últimos cinco anos, na direção da desintegração e da confrontação. Se essa tendência persistir, daqui a 20 anos o mundo estará mais perigoso. Para tentar reduzir esse risco, Biden telefonou a Xi Jinping, na véspera do 11/9, para manifestar “o interesse dos EUA na paz e na estabilidade global e afirmar a responsabilidade dos dois países em assegurar que a competição não se torne em conflito”.

Neste quadro de grandes transformações, qual o lugar do Brasil no mundo na defesa de seus interesses? A pergunta deverá ser respondida pela sociedade brasileira nas eleições presidenciais de outubro de 2022.

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EX-EMBAIXADOR EM WASHINGTON (1999-2004), É PRESIDENTE DO IRICE

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