20 anos do atentado de 11 de setembro: a visão de um muçulmano brasileiro

Só é possível vencer o estereótipo que tanto nos afeta com informações corretas sobre a religião.

Ali Zoghbi, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2021 | 03h00

Neste mês de setembro, no dia 11, o mundo recordou uma tragédia cruel e inaceitável: o ataque terrorista aos Estados Unidos – sendo o mais emblemático o do World Trade Center, em Nova York, causando a morte de cerca de 3 mil pessoas.

Este ato comoveu o mundo, mas para nós, muçulmanos, trouxe consequências ainda mais dolorosas: reforçou um estereótipo que já existia sobre nós. Se antes éramos vistos como retrógrados, que viviam em tribos sobre camelos, passamos a ser considerados também violentos e terroristas. A comunidade muçulmana, em todo o mundo, sentiu-se acuada e ameaçada – inclusive no Brasil.

Antes de me aprofundar nesta questão, é preciso explicar: nenhum atentado terrorista ou ação violenta podem ser considerados islâmicos. O motivo é simples e está em nosso livro sagrado, o Alcorão: Deus nos revelou, por meio do Profeta Muhamad, que “quem mata uma pessoa inocente é como se tivesse matado toda a humanidade. Quem salva uma pessoa inocente é como se tivesse salvo toda a humanidade”.

O muçulmano repudia a morte de qualquer ser humano, seja onde ou como for. Sabe que Deus elegeu o homem como a melhor das criaturas – e não fez ressalvas com relação à religião, etnia ou nacionalidade. Também nas escrituras sagradas, mostrou que fomos divididos em povos e tribos para nos reconhecermos uns aos outros – e que o ser humano mais honrado é o mais temente a Deus. Por isso, precisamos respeitar as diferenças e crescer com elas, não guerrear em razão delas.

No decorrer da História, grupos minoritários de diferentes tradições religiosas têm se utilizado da religião para disseminar medo e terror. Não podemos macular a religião ou seus adeptos por causa dessas minorias. Foi justamente o que aconteceu com os muçulmanos, quase 2 bilhões de pessoas em todo o mundo.

A construção deste novo estereótipo dos muçulmanos, ocorrida após os atentados de 11 de setembro, contou com forças poderosas. Grandes veículos de comunicação de massa, infelizmente, não conseguiram noticiar os fatos separando o “joio do trigo”. Foi e ainda é muito comum vê-los utilizar os termos “islâmico”, “islamismo” e “Islam” erroneamente.

As indústrias de entretenimento também reforçaram a narrativa de que o muçulmano é violento. Nas duas últimas décadas, são inúmeras as obras com a temática terrorista, sempre praticada por muçulmanos. O Islam virou um inimigo a ser combatido. E esta ideia não ficou apenas no imaginário das pessoas. Poderiam ter contribuído com o mundo se houvesse uma produção – um documentário talvez – que mostrasse a origem destes grupos extremistas, quem os financiou, e com qual propósito, e como eles vêm se comportando ao longo do tempo.

No Brasil, um país laico e multiétnico, a comunidade muçulmana sentiu o baque. Tivemos relatos de ataques a mesquitas e a pessoas com vestimentas islâmicas ou o hijab, o lenço utilizado por algumas mulheres muçulmanas. Atitudes bárbaras e injustas causadas pela visão equivocada sobre a religião.

O caminho escolhido pelos muçulmanos foi mostrar o que é o Islam de fato. Todas as mesquitas, entidades e associações passaram a falar mais sobre a religião, reforçando os conceitos islâmicos de busca da paz, da preservação da vida, do auxílio aos mais necessitados – independentemente da religião – e, sobretudo, do respeito às diferenças. Entendemos que só com a disseminação de informações corretas e de qualidade sobre a religião seria possível vencer o estereótipo que tanto nos afeta.

Passamos a promover, com mais ênfase, ações sociais em regiões de alta vulnerabilidade social, chamadas de Islam Solidário. Atingimos centenas de milhares de pessoas levando assistência médica, humanitária e jurídica totalmente gratuitas com o apoio do poder público.

Também levamos conhecimento nas mais diferentes esferas. Criamos o curso O Mundo Islâmico, ministrado em entidades como o Instituto Rio Branco, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária. Promovemos palestras para escolas, universidades e associações. Criamos até um gibi, intitulado Khalil, cujo personagem principal, um pré-adolescente muçulmano, vive muitas aventuras com sua turma e, sempre que tem oportunidade, fala sobre sua religião com os amigos.

A defesa das vítimas da islamofobia ainda é uma preocupação. Com base na legislação brasileira – que defende que todos têm o direito de professar a sua fé –, rebatemos ações preconceituosas e damos apoio e assistência às vítimas.

No mais, como muçulmano, mesmo sentindo na pele o peso de uma generalização injusta e cruel, reafirmo que nenhum tipo de diferença justifica qualquer atentado à vida. Estou convicto de que atos terroristas têm como função, apenas, disseminar a intolerância, a dor e a insegurança e requerem condenação firme de toda a humanidade. E a comunidade muçulmana, em especial, precisa defender sua religião, lembrando que o Islam jamais pode ser usado como base ou inspiração em atentados contra a vida. Essa é a nossa responsabilidade.

*

É VICE-PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES MUÇULMANAS DO BRASIL (FAMBRAS)

Tudo o que sabemos sobre:
Islamismoterrorismo11 de setembro

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.