2021, apertem os cintos

Nas atuais condições, pequenos erros na política econômica custarão muito caro

Nathan Blanche, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2021 | 03h00

Na virada do ano os mercados no Brasil surfaram a onda da euforia internacional, em meio à vitória de Joe Biden, seu pacote de quase US$ 2 trilhões e o avanço na produção e aplicação de vacinas. O Ibovespa partiu de 94 mil pontos em novembro para 125 mil na primeira semana de janeiro (alta de 33%!), enquanto o câmbio caiu de R$ 5,70 por dólar para R$ 5,35 no mesmo período.

Todo esse otimismo se verificou mesmo sob sinais inequívocos de que as coisas não iam tão bem no encaminhamento de graves problemas internos:

l Não havia (e não há até agora) um Orçamento aprovado para 2021. Vai ter auxílio emergencial? PEC emergencial? O teto será cumprido?

Gastamos e nos endividamos muito mais que média dos emergentes em 2020 para combater a pandemia, mesmo tendo menor espaço fiscal para isso. Em 2019 nossa dívida bruta era de 92% do PIB pela metodologia do FMI (que inclui todos os títulos do Tesouro em poder do Banco Central), ante a média de 54% do PIB entre os emergentes. Mesmo assim, gastamos em torno de 8,3% do PIB no combate à pandemia, muito acima da média de 3,5% do PIB dos emergentes do G-20. Com isso nossa dívida bruta deu um salto de 15 pontos porcentuais do PIB em menos de um ano, atingindo mais de 100% do PIB ao final de 2020 pela métrica do FMI. Ou seja, apesar de sermos um país de renda média, que cresce menos que seus pares, adotamos uma política fiscal similar à de países ricos.

Como decorrência disso, haverá em 2021 um volume recorde de vencimentos de títulos a serem rolados pelo Tesouro (R$ 1,35 trilhão, um aumento de 72% em relação aos R$ 783 bilhões de 2020).

l Não havia (e ainda parece não haver) um plano claro e efetivo de vacinação nacional. Ficamos, mais uma vez, atrasados em comparação a outros países do mundo, em meio a briguinhas políticas entre União e Estados.

l Os riscos políticos eram (e continuam sendo) crescentes. Como funcionará a “política tradicional” sob o comando de Bolsonaro? Vamos alterar nossa política externa?

O presidente Bolsonaro, que vê sinais de recuo em sua popularidade, acuado pela pressão pública e pelos mais de 50 pedidos de impeachment, poderá facilmente enveredar pelo populismo econômico.

O presidente parece ter abandonado a promessa de campanha de fazer uma “nova política”. A busca por maior apoio político e a tentativa de melhorar sua popularidade em ano pré-eleitoral, oferecendo mundos e fundos, agora esbarra numa antes inexistente restrição orçamentária: o teto dos gastos. O cobertor está ainda mais curto. Nas atuais condições, pequenos erros na política econômica custarão muito caro, econômica e politicamente.

Na política externa, o Brasil foi um dos últimos a reconhecer a vitória de Biden. E a inexistência de uma política positiva em defesa do meio ambiente continua prejudicando os investimentos externos. O resultado efetivo dessa política já se refletiu numa queda de 50% nos investimentos diretos entre 2019 e 2020, em meio também aos efeitos da pandemia.

Então, em meados de janeiro, como que caindo na realidade, os mercados financeiros corrigiram parte dos excessos: o Ibovespa recuou para 115 mil pontos ao final do mês e o câmbio passou a operar nas proximidades de R$ 5,50 por dólar.

A inflação ainda mostra sinais de persistência acima do esperado, o que deve levar o Banco Central a antecipar a alta da taxa Selic, o que, por sua vez, terá, mais do que nunca, duras implicações fiscais. Com o encurtamento dos prazos dos títulos em 2020, e com uma parcela maior da dívida indexada à Selic (quase 35% do total), o contágio da política monetária sobre a política fiscal será maior do que já foi no passado. Elevações na Selic vão levar a aumento de déficit nominal, que será tanto maior quanto menor for a capacidade do governo de diminuir o déficit primário.

A Tendências projeta déficit primário de 2,1% do PIB e déficit nominal próximo de 5% do PIB neste ano. Mas a projeção tem viés de piora em razão dos crescentes riscos mencionados, principalmente relacionados à insolvência fiscal.

No cenário pessimista da Tendências, em que o populismo econômico impera, com a flexibilização do teto dos gastos para acomodar despesas com transferência social e ampliação dos investimentos públicos, entraríamos claramente numa rota de insustentabilidade fiscal, em que a dívida bruta cresceria todos os anos no horizonte de uma década.

É fato que, com o resultado favorável ao Planalto das eleições na Câmara e no Senado, abre-se uma janela de oportunidade para encaminhamento da agenda econômica. Se não aproveitarmos essa janela e trilharmos o caminho da irresponsabilidade fiscal, o novo presidente a partir de 2023, seja quem for, terá um trabalho hercúleo e politicamente ingrato para evitar um desastre fiscal para o País. Avançar na linha da irresponsabilidade levará a um resultado já conhecido: aumento da percepção de risco, maior depreciação cambial, perda de confiança na estabilidade macroeconômica, menor crescimento e aceleração inflacionária. Conta a ser paga por todos, especialmente pelos mais pobres.


SÓCIO-DIRETOR DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA INTEGRADA

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