2030 – um dia típico em minha vida

O mundo já tem o protótipo de um novo CTI, acionado pelo pensamento...

Ethevaldo Siqueira*, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2020 | 03h00

São 6h30 da manhã desta segunda-feira, 28 janeiro de 2030.

Acabo de acordar ao som da Pastoral de Beethoven e de cantos de pássaros, com imagens de primavera projetadas no teto de meu quarto. Depois do alongamento, faço minha meditação, apoiado num audiovisual que traz mensagens bíblicas. Devidamente espiritualizado, corro para o chuveiro, com temperatura programada para um banho de verão de apenas três minutos.

A água de meu banho é totalmente reciclável, como toda a que usamos aqui em casa. Por isso as calhas do beiral captam a água da chuva, que é armazenada, purificada e reaproveitada. Há anos aderi à energia solar, hoje captada por placas fotovoltaicas de maior eficiência.

8 horas – Após o desjejum, começo minha rotina diária de trabalho. Com mais de 90 anos, sou, felizmente, um exemplo de longevidade e boa saúde. E ainda posso trabalhar seis horas por dia, no mínimo, na produção de artigos e pesquisas sobre tendências tecnológicas. Em lugar de meu PC, tenho agora um Multicom, um terminal acionado por comando vocal, a 15 Gigabits/segundo.

Nesse terminal faço entrevistas por videoconferências interativas, com apoio de um novo sistema de inteligência artificial que traduz automaticamente mais de 30 idiomas e, creiam, com surpreendente precisão. Na semana passada entrevistei um astronauta chinês que está na nova estação espacial de seu país. Ele falava mandarim e eu, português.

9h30 – Nesse horário, começo a escrever, ou melhor, a ditar meus textos no terminal Multicom. Há mais de cinco anos aposentei o teclado e aderi ao comando vocal. No canto superior da tela de meu terminal há uma área destinada a pesquisas instantâneas. Nela posso checar qualquer dúvida ou buscar informação sobre história, economia, física, astronomia ou dezenas de outros temas.

Minha principal ferramenta de pesquisa agora é o CTI (de Conhecimento Total Internacional), que foi criado como um dos incríveis subprodutos da famosa 5G, a quinta geração das comunicações móveis, um sucessor dos antigos bancos de dados. Com o CTI pesquiso o conteúdo de uma grande biblioteca virtual mundial num universo de 500 milhões de livros de todas as culturas. Os tradicionalistas podem ainda usar as versões multimídia de enciclopédias como a Britannica, a Larousse ou a Espasa-Calpe. Até para minhas pesquisas pessoais o CTI me ajuda a localizar artigos que publiquei neste Estadão, como o de domingo 7 de janeiro de 2001, com o título 2005: um dia típico em minha vida.

Para jornalistas o CTI pode selecionar em segundos o que há de mais importante no noticiário geral ou no noticiário especializado, em escala mundial. Com ele acesso o portal do Estadão – que se tornou um jornal totalmente digital, assim como os maiores jornais do planeta: The New York Times, Financial Times, The Guardian e Japan Times. O mundo já tem o protótipo de um novo CTI, acionado pelo pensamento – coisa que, ainda hoje, parece ficção para muitos.

11 horas – Chegou a hora de minha videoconferência internacional, uma entrevista exclusiva com Elon Musk, um cavalheiro famoso, que hoje beira os 80 anos. Com entusiasmo, ele faz um balanço da evolução de sua empresa, a Tesla, hoje na área de transportes coletivos, com trens que flutuam sobre colchão magnético. Muito a contragosto, ele fala sobre o desastre da primeira missão da SpaceX a Marte.

12h30 – Chegou a hora do almoço. No cardápio quase já não há produtos de origem animal. Só duas exceções, peixes e crustáceos, e apenas uma vez por semana. Carne vermelha, nem pensar. Terminado o almoço, retomo o trabalho no terminal Multicom, para concluir um artigo sobre a evolução recente da inteligência artificial, bem como seu impacto na economia brasileira.

Comprovo, com números, que neste início de 2030 o Brasil já utiliza intensamente recursos de inteligência artificial, como os de computação em nuvem e internet das coisas. E saibam: o mundo tem hoje quase 2 trilhões de objetos conectados.

16 horas – Chegou a hora de meus contatos internacionais. Posso optar por dois novos satélites geoestacionários, especiais para internet de alta velocidade, a 5 gigabits por segundo, que me permitem baixar o conteúdo de um livro digital de 200 páginas em apenas 25 segundos. A grande sensação desde 2026 são os serviços da ITS, a Internet-in-the-Sky, baseada no Teledesic, o sistema de 288 satélites de órbita baixa que cobrem praticamente cada metro quadrado do planeta.

18 horas – Como abolimos o jantar tradicional, vou fazer apenas uma levíssima refeição: uma sopa de baixas calorias e uma fruta de sobremesa. A maioria das pessoas está conscientizada sobre os problemas da obesidade. Até as escolas ajudam nessa área e orientam as pessoas a reeducar seus hábitos alimentares.

23 horas – Chegou a hora de dormir. Não temos mais insônia, com os diversos indutores, de eletrônicos a acústicos, do sono, aprovados pela medicina. O meu indutor preferido usa música suave, especial, que desliga automaticamente após dez minutos, tempo suficiente para que eu já esteja dormindo como um bebê.

Boa noite, leitores de 2020.

* ETHEVALDO SIQUEIRA É JORNALISTA ESPECIALIZADO EM NOVAS TECNOLOGIAS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.