A Amazônia recolocará o Brasil no mapa

A valorização do interesse nacional pela sustentabilidade é a via para País se reencontrar

Paulo Sotero, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2020 | 03h00

“O Brasil deixou de ser estudado no exterior.” Começa assim a postagem que o professor Feliciano de Sá Guimarães, da Universidade de São Paulo, um dos mais talentosos de sua geração, fez recentemente no Facebook. A mensagem resume bem o fato de o País, que dez anos atrás era celebrado mundo afora por seu crescimento econômico, sua estabilidade política e sua inclusão social, alcançados em apenas 25 anos de democracia, ter sumido do mapa depois do petrolão, do colapso da economia, do impeachment de Dilma Rousseff e da atual treva bolsonarista. A afirmação é verdadeira, mas contém algum exagero.

Nos Estados Unidos, universitários continuam interessados em cursos sobre o Brasil e pesquisadores seguem na lida de entender e explicar as complexidades do País. Um dos melhores entre estes, o professor Matthew M. Taylor, da American University, em Washington, acaba de publicar um livro luminoso. Decadent Developmentalism – The Political Economy of Democratic Brazil (Cambridge University Press) é um exame corajoso das causas de nossas frustrações por um pesquisador que tem fortes laços afetivos com o País, ensinou na USP e mantém-se conectado a uma ampla rede de colegas brasileiros.

O esgotamento do desenvolvimentismo no Brasil reflete, segundo Taylor, déficit de análise em três áreas de estudos e resulta num raciocínio circular. Resumindo, os economistas tendem a reduzir os problemas à ausência de liderança política. Os cientistas políticos, que sempre enfatizaram as relações Executivo-Legislativo, concentram-se mais nos processos de governação do que em seu conteúdo e desempenho, e negligenciam a economia. Os sociólogos, por sua vez, partem de uma perspectiva artificial e exageradamente otimista sobre quão bem a política brasileira funciona ou poderia funcionar e fecham o círculo sugerindo que tudo o que é preciso é uma liderança mais forte, mais focada na produção legislativa e no controle executivo do que em seu conteúdo. Essas falhas dão margem a cenários róseos sobre a capacidade do País de sair do buraco na ausência, menosprezada pelos acadêmicos, de formas de planejamento estratégico e supervisão, necessárias para fazer o Estado desenvolvimentista produzir resultados.

Na capa do livro, uma foto da popa do imenso navio-tanque Celso Furtado, da Petrobrás, homenageia o economista e historiador talvez mais associado ao desenvolvimentismo no País. Na epígrafe do capítulo de conclusão, uma frase de Celso Furtado, de 1984, recorda um ensinamento do grande mestre, talvez esquecido nestes tempos medíocres, mas mais do que nunca relevante: “A retomada do desenvolvimento também requer criatividade na esfera política. Esta se manifesta apenas quando um alto grau de vontade coletiva se soma a uma percepção aguda do momento histórico”.

O atual momento histórico do Brasil contém uma oportunidade única já percebida por muitos atores. Trata-se do desafio existencial imposto ao País pela mudança climática, exacerbada pela incapacidade do atual ocupante do Planalto e elevada como prioridade global pela eleição de Joseph Biden para a Casa Branca.

Em julho passado, meses antes de os americanos negarem um segundo mandato a Donald Trump, 17 ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central do Brasil divulgaram uma declaração conjunta sobre as vantagens que a busca de uma economia de baixo carbono daria ao País, que já tem a matriz energética mais limpa entre as grandes economias. Foi um forte endosso da iniciativa Concertação pela Amazônia, anunciada por um influente grupo de empresários, cientistas, ativistas da sociedade civil e outros atores não governamentais para mobilizar os cidadãos a abraçar e defender políticas ambientais racionais, congruentes com o interesse nacional e vantajosas para a Nação.

As prioridades da Concertação, como o fim do desmatamento e a restauração florestal – o cerne da contribuição que o Brasil ofereceu há cinco anos em Paris – projetam um País disposto e capaz de reencontrar sua autoestima, fazendo o que precisa ser feito em casa para se recolocar como membro relevante da comunidade internacional, que sempre prezou e pela qual sempre foi prezado.

Um dos atrativos da iniciativa é abrir espaço para uma cooperação ativa e consequente entre atores além de suas fronteiras nacionais. No caso da Amazônia, trata-se de articular os interesses do País com os de sete vizinhos na América do Sul – uma oportunidade de exercício de liderança regional de nossa diplomacia, ora adormecida, que voltará à pauta mais adiante, quando o Brasil tiver líderes apresentáveis.

No ano que começa, a tarefa será planejar e executar ações que ampliem a visibilidade desses esforços e arregimentem aliados para a causa além das preferências políticas tradicionais, que hoje são mais limitadoras do que mobilizadoras. O desafio é fazer que uma iniciativa inovadora e ambiciosa como esta, ancorada em demandas da sociedade, seja abraçada por ela e produza resultados.

Feliz ano novo!


JORNALISTA, É PESQUISADOR SÊNIOR DO BRAZIL INSTITUTE NO WILSON CENTER, EM WASHINGTON

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