A América Latina, a União Europeia e a covid-19

Temos de continuar a defender nossos valores comuns, que estão no cerne da nossa parceria

Josep Borrell Fontelles e Jutta Urpilainen, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 03h00

A América Latina, o Caribe e a União Europeia mantêm relações sólidas e partilham uma história comum, valores universais e interesses políticos. Mas a nossa relação tem raízes muito mais profundas. Nos últimos anos, as nossas sociedades tornaram-se mais integradas, assim aumentando a nossa influência política e econômica no mundo: em conjunto, somos responsáveis por 25% do PIB mundial e representamos um terço dos membros das Nações Unidas e quase metade dos membros do G-20.

No entanto, o mundo está mudando, e em ritmo acelerado, sobretudo por causa da pandemia de covid-19, e os valores que partilhamos são cada vez mais contestados. Do multilateralismo e do desenvolvimento sustentável à igualdade e à coesão social, o nosso empenho numa ordem mundial assente em regras tem sido posto à prova. Nesta ordem mundial em mutação, a América Latina e a Europa têm de continuar a trabalhar em conjunto para proteger os valores que a nossa parceria representa.

O principal desafio que enfrentamos agora é a luta comum para vencer a covid-19. Da Ásia à Europa e às Américas, o “epicentro da pandemia” deslocou-se, causando ondas de choque por todo o mundo, afetando as economias e as sociedades de forma desigual.

A América Latina tem sido afetada de forma particularmente severa pela covid-19. Embora reúna apenas 8% da população mundial, contabiliza 20% da totalidade dos óbitos por covid-19. E de acordo com os dados do início de julho, a região registra metade das novas vítimas mortais contabilizadas em todo o mundo. 

Felizmente, a maioria dos países da região respondeu rapidamente ao surto da pandemia. Apesar das dificuldades econômicas que as medidas de confinamento acarretaram para a maioria das economias, a imposição dessas medidas foi a opção correta. Essa ação decisiva ainda terá de se traduzir num “achatamento da curva” de contágios, pelo que deveremos concentrar-nos em quatro fatores. 

Em primeiro lugar, a covid-19 atingiu a América Latina num momento em que os níveis de desempenho econômico e de confiança do público nas instituições já eram baixos. Em segundo lugar, o impacto econômico da pandemia está fortemente associado a condições preexistentes – incluindo o emprego informal, a pobreza, a desigualdade, os serviços de saúde fragilizados e a violência de gênero.

Em terceiro lugar, mais de três meses de medidas de confinamento representaram um gigantesco esforço social e humano em termos de proteção da saúde, de apoio aos mais vulneráveis e de contributo para o esforço mundial de contenção do vírus. Esses esforços merecem reconhecimento e apoio urgente da parte da comunidade internacional e da União Europeia. Em quarto lugar, as respostas financeiras multilaterais não conseguiram, até esta data, satisfazer as necessidades reais de uma região com pouca margem de manobra orçamentária e monetária e com receitas fiscais reduzidas. 

No seu conjunto, esses fatores traçam um quadro bastante sombrio, mas mostram-nos como podemos começar a dar a volta à situação.

Para os parceiros internacionais, como a União Europeia, o G-20, o Banco Mundial e outras organizações multilaterais, isso significa dar uma resposta adequada, financiando os sistemas de saúde, preservando postos de trabalho e evitando um novo ciclo de austeridade. O cenário alternativo seria uma repetição da “década perdida” de 1980. Combater todas as formas de desigualdade é um elemento crucial dos esforços em prol do desenvolvimento sustentável promovidos pela União Europeia com os países parceiros de todo o mundo. Não podemos deixar ninguém para trás.

A América Latina necessita igualmente de uma solução baseada nas necessidades e nas possibilidades de construir um futuro melhor e mais responsável. A União Europeia está a explorar formas de maximizar o impacto dos seus instrumentos orçamentários para impulsionar a recuperação da sua economia, intensificando assim o seu apoio à região.

Com a abordagem da Equipe Europa, reencaminhamos quase € 1 bilhão para suprir necessidades sanitárias e sociais básicas na América Latina. Mas podemos e devemos fazer mais, a começar por um apoio mais sólido no novo orçamento de longo prazo da União Europeia para 2021-2027. Uma visão clara da nossa parceria e do nível adequado de apoio nos permitirá dotar a região da resiliência social e econômica necessária para resistir melhor a futuras crises. E temos de continuar a defender os nossos valores comuns, que estão no cerne da nossa parceria, continuando a unir esforços para impedir a erosão da ordem mundial e pôr termo às crescentes desigualdades e divergências em nível mundial. Com isso em mente, exploramos com os ministros de Negócios

Estrangeiros da União Europeia formas de reforçar o nosso apoio à recuperação em longo prazo dos países da América Latina e do Caribe.

RESPECTIVAMENTE, ALTO REPRESENTANTE DA UNIÃO PARA OS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS E A POLÍTICA DE SEGURANÇA, VICE-PRESIDENTE DA COMISSÃO EUROPEIA; E COMISSÁRIA EUROPEIA RESPONSÁVEL PELAS PARCERIAS INTERNACIONAIS

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