A bolsa e os investidores estrangeiros

Eles não devem deixar de lado a prudência, mas vejo o Brasil como uma boa alternativa

Roberto Teixeira da Costa*, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2020 | 03h00

A “bolha especulativa” citada em meu artigo publicado no Estadão de 13/1 continua sendo debatida como preocupação com o desempenho futuro da bolsa. Aspectos que foram apontados para fundamentar tal temor:

1) As ações brasileiras não estariam baratas. Muito embora, em termos referenciais aos mercados desenvolvidos, o “preço/lucro” das ações brasileiras que compõem o Ibovespa seja inferior ao dos países desenvolvidos, se compararmos a quocientes do passado estaria elevado. No entanto, para todos os que investem com visão de médio e longo prazos, admitindo que a economia brasileira continuará lenta e gradualmente melhorando, os preços não parecem absurdos numa análise criteriosa, e não superiores aos do México, por exemplo.

Analistas internacionais vêm alertando há algum tempo que podemos estar no fim de um processo de alta nas bolsas mundiais, o que afetaria o fluxo de capitais para países em desenvolvimento. Há controvérsias a esse respeito, pois os mercados têm demonstrado maior resiliência às crises vividas e alguns falam no que chamam o “novo normal”.

2) A venda em bloco de ações, seja de empresas públicas ou privadas, estaria indicando desconfiança na manutenção dos atuais preços em bolsa. Lembro que muitas dessas ações estiveram em suas carteiras por vários anos e não foram ao mercado por falta de qualquer possibilidade; surgindo a oportunidade de dar liquidez, não as deixaram passar. Assim, a colocação não é indicativa de uma desconfiança no mercado, e sim de uma oportunidade de reequilibrar carteiras e dar liquidez a parte de seu portfólio.

3) Dúvidas sobre o crescimento do nosso PIB e uma imagem negativa do Brasil não ajudam. Há que reconhecer essa realidade, mas a ênfase está em que alguns desses problemas não são novos e fatos recentes indicam que alguns segmentos do governo estão conscientes da necessidade de alterar essa imagem. Como exemplo, em 21/1 o presidente Jair Bolsonaro propôs a criação do Conselho da Amazônia e indicou o vice-presidente Hamilton Mourão para sua coordenação, bem como a criação da Força Nacional Ambiental, que preencherá importante espaço para equacionar a questão climática. Os dois aspectos transmitem iniciativa positiva com a indicação sobre mudança de sensibilidade em relação à Amazônia, que é uma questão crucial para nossa imagem.É certo que cada vez mais os investidores externos não olharão exclusivamente para o desempenho da economia brasileira, mas também para temas gerais, como a questão climática, nossa política de segurança interna e melhor educação. Isso ficou muito claro na 20.ª reunião anual do Fórum Econômico Mundial, realizada em Davos em janeiro.

Quanto ao crescimento do PIB, se 2,2% projetados para 2020 pelo FMI não são o número dos nossos sonhos, confirmam uma tendência positiva e mostram que estamos progredindo e nos diferenciando dos diversos países da América Latina.

4) Paixão asiática – os olhares dos investidores estariam direcionados principalmente para os países asiáticos, que na opinião de muitos investidores continuarão, em média, mantendo o crescimento com maior velocidade que países em desenvolvimento, como em nossa região. O surto do coronavírus deve ter efeito negativo no desempenho dos países asiáticos e suas consequências, particularmente sobre a China, ainda não são mensuradas. Portanto, essa paixão está sub judice.

5) Tensão social – alguns investidores de mercado pesam, em sua decisão de aplicar em bolsa, o temor de que se reproduzam no País manifestações sociais como as vistas no Chile, na Colômbia e no Equador. Isso sem falar nos resultados da eleição presidencial na Argentina. Considerando a situação diferenciada do nosso país, ainda assim líderes políticos do passado vêm estimulando reações populares contra o governo, quer por questões ideológicas ou por demora nos resultados de política econômica, que causam insegurança aos investidores de curto prazo.

Temos plena consciência desse risco potencial, mas devemos reconhecer que o Congresso, no seu ritmo, vem trabalhando para mitigar as distorções que nos acompanham há muitos anos.

A questão do emprego é complexa, dadas as sensíveis mudanças no mercado de trabalho, pela necessidade de reciclar nossa mão de obra para atender à demandas de emprego impostas pelas novas tecnologias.

Não quero, aqui, deixar um quadro róseo, como se tudo estivesse sob controle, mas não consigo olhar o Brasil com pessimismo nos anos vindouros, considerando os obstáculos que temos pela frente. Na minha visão, o quadro externo é certamente uma variável adicional, que não nos ajuda.

Assim, os investidores nacionais ou estrangeiros não devem deixar de lado a prudência, diversificando suas aplicações e avaliando claramente os riscos, considerando sempre não abrir mão de eventuais necessidades futuras de liquidez ao definirem sua política de investimento. Porém continuo vendo o Brasil como uma boa alternativa.

* ROBERTO TEIXEIRA DA COSTA É ECONOMISTA E CONSELHEIRO EMÉRITO DO CENTRO BRASILEIRO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS E DO CONSELHO EMPRESARIAL DA AMÉRICA LATINA

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