A bomba atômica do deputado

Se é para ter chanceler em duplicidade, o mínimo a esperar é dose dupla de equívocos

FERNANDO DOURADO FILHO*, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2019 | 03h00

É sabido que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, tomou gosto pela política internacional. Como o Brasil está lembrado, foi ele que, sintomaticamente, esteve presente à reunião reservada entre os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca. Se é dispensável imaginar o teor anódino da conversa travada, a tirar pelo vácuo propositivo que ressoou, chamou a atenção que tenha sido realizada ao arrepio do protocolo, visto que este prevê, na ausência do chanceler e do secretário de Estado, que os mandatários se façam acompanhar tão somente pelos intérpretes. Mas o desdobramento da regra não se aplicou ao assim chamado “chanceler informal”, que foi instado pelo anfitrião a permanecer no recinto.

Nesse contexto, é sabido que a sombra do deputado se projeta por sobre Ernesto Araújo – o ministro das Relações Exteriores de direito –, o que tem valido a este justificado desconforto nas antessalas do poder, ao ser sumariamente excluído de sessões de fotos, a despeito de se jactar de ser o executor da destrambelhada carta de navegação a que estamos obedecendo, na tentativa de definir que lugar nos cabe ocupar no mundo. Ora, se a capacidade de formulação de ambos – chanceler e deputado – parece equivaler-se em tom e conteúdo, mesmo porque bebe da mesma fonte, uma lei da Física vaticina que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço simultaneamente.

Não obstante o detalhe, certo é que tão a gosto está o segundo filho do presidente com o que se lhe afigura um papel feito sob medida para suas competências – tanto a conferida pelo jus sanguinis quanto a que advém de seu autoproclamado tirocínio – que Sua Excelência declarou à televisão chilena que seria quase impossível encontrar uma saída pacífica para a crise venezuelana, insinuação que foi interpretada de várias formas, salvo por uma única que poupasse o Brasil do ridículo. Até porque contraria a pedra angular do Itamaraty, qual seja, a de primar pela resolução pacífica dos conflitos. A vizinhança dos Andes, a seu turno, há de ter embalado também o pai a ir além do prudente, o que o levou a tornar públicas simpatias pessoais pelo falecido general Augusto Pinochet, o que resultou em constrangimento direto para o presidente Sebastián Piñera, ademais de ferir outra cláusula pétrea da nossa Chancelaria, a que propugna a não interferência em temas domésticos de outros países.

Assim sendo, como os modelos tendem a se repetir em latitudes de subdesenvolvimento crônico, pode-se dizer que a nova dupla, a despeito de não tocar em uníssono, espelha com sinal invertido a dobradinha inaugurada por Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, este último investido de prerrogativas de plenipotenciário junto ao chamado eixo bolivariano, alçado hoje a ponta de lança da rapinagem e do narcotráfico.

Nesse contexto, há um estranho traço a unir as gestões. Isso porque ambas se viram atraídas em dado momento pelas pautas militares de alta octanagem. No passado, imbuída de uma visão messiânica de um Brasil que cultuava o espelho, Brasília se convidou para mediar a crise iraniana – contexto no qual estávamos tão legitimados para atuar quanto o cão doméstico está para apartar leões da savana.

Numa reedição torta de nossa incursão por esse terreno, eis que agora o deputado Eduardo Bolsonaro, talvez para não perder espaço vis-à-vis os irmãos – um às voltas com o que parecem ser tenebrosas transações e o outro intoxicado pelos sortilégios do Twitter, onde pisoteia a língua portuguesa e a governabilidade –, esboçou um simulacro de nova ordem mundial, na hipótese de o Brasil vir a ter armas nucleares. Em linha com um raciocínio digno de adolescente adicto de filmes de ação, o Brasil seria levado “mais a sério” se tivesse “poder bélico maior”. Parece cristalino que é a mesma lógica que leva o clã a pensar que a posse de armas em casa tem efeito dissuasivo sobre a atuação de bandidos de escol. No cenário projetado pelo parlamentar, se tivéssemos caças em ação e um submarino nuclear operativo, não somente o ditador-traficante da Venezuela nos respeitaria mais, como seríamos temidos “pela Rússia ou pela China”.

Ora, custa à maioria dos mortais imaginar tanto Vladimir Putin quanto Xi Jinping a perderem o sono por causa da ameaça verde-amarela, representada por nossa solitária belonave a perscrutar os taludes submarinos ou por rasantes de nossos aviões sobre os arranha-céus do mundo. Diante da perplexidade por certo bem-humorada da assistência de alunos da Escola Superior de Guerra em visita a Brasília, Eduardo Bolsonaro riscou com a ponta do florete a imagem de marca da família. “O terrorista, o criminoso, o ditador sanguinário só respeitam uma coisa: a força”. Dizendo-se, afinal, limitado pelas peias do politicamente correto, aqueceu o espírito da audiência para a iminência de uma guerra na Venezuela: “Se isso daí evoluir para um quadro pior, que é o que ninguém deseja, quem vai entrar em ação serão principalmente os senhores (militares).”

Por oportuno, é bom que se diga que, se algum dia nos coube ter voz altiva nas pautas ditas beligerantes, isso muito se deve ao ex-diretor da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq), laureada com o Prêmio Nobel da Paz em 2013, embaixador José Maurício Bustani, que, frise-se, convidado para ser o paraninfo dos formandos do Instituto Rio Branco em 2019, foi sumariamente excluído das festividades pelo chanceler, por conta de ter ele adotado à época de seu mandato posições destemidas com respeito à Líbia e ao Iraque, que afrontaram o atual assessor especial de Trump, John Bolton. Mais do que tudo, a ignomínia desnudou a sabujice do Itamaraty que nos restou. A nossos heróis de fato, portanto, o opróbrio.

Se é, pois, para termos chanceler em duplicidade, o mínimo a esperar é dose dupla de equívocos.

* FERNANDO DOURADO FILHO É ESCRITOR

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