A candidatura de Bolsonaro tem jeito?

Pode ele reconhecer os erros, corrigir sua trajetória e se empenhar em entender as necessidades vitais do povo brasileiro?

José Augusto Guilhon Albuquerque, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2022 | 03h00

A conduta do presidente assusta o Planalto e desafia seus opositores, pois parece haver consenso entre as elites dirigentes. Ou ele muda de atitude – para de provocar controvérsias irrelevantes, de se opor a pautas majoritárias na população, para de hesitar diante de decisões vitais para a parte mais vulnerável do eleitorado, e começa a governar seriamente – ou não chegará ao segundo turno.

Interpretar suas motivações parece ser urgente. Mas não se pode abrir a cabeça das pessoas e observar o que se passa lá dentro. Para entender o comportamento de um político, antes de especular sobre conversas de bastidores ou declarações de intenções, convém observar... o seu comportamento.

Muitos são os registros das condutas de Jair Bolsonaro como oficial do Exército e como parlamentar, e acompanhamos seu comportamento público durante três anos de mandato presidencial. As questões relevantes a observar nessas funções seriam: saber se seu comportamento segue um padrão ou é errático; em que consiste esse padrão, se houver; e qual é seu objetivo.

É preciso saber se existe continuidade de padrão entre essas funções ou em que consistiriam as eventuais mudanças de padrão e de objetivo. Resta, ainda, saber se é possível o presidente alterar sua conduta, tornando-a compatível com uma candidatura competitiva no segundo turno de 2022.

A análise dessas observações suscita um conjunto de hipóteses sobre o comportamento futuro do candidato. Sua conduta, nos três casos, segue um padrão definido, embora à primeira vista pareça ser errática: em todos os casos, destacam-se a revolta contra a autoridade, a total ausência de autodisciplina (cujo efeito é a aparência errática), sua submissão a seus supostos liderados, uma espécie de enclausuramento na célula familiar estendida (filhos, ex-mulheres, subordinados imediatos) – que eu chamaria de “familialismo” –, além de uma atitude agressiva com 360° de azimute, contra tudo e contra todos.

Sua conduta, nos três casos, só é errática na aparência. Ao contrário, apresenta um padrão definido, faltando estabelecer se existe, em todos eles, um objetivo claro a ser atingido e de que objetivo se trata.

Sua carreira no Exército é a mais obscura. Do pouco que se sabe, dois objetivos se salientam, associados a dois de seus padrões de conduta: legitimar sua revolta contra a autoridade como expressão de uma suposta demanda coletiva do baixo clero militar e dar crédito à sua pretensão de liderar uma parcela de seus pares. Relatos de seu ativismo insubordinado e de sua atuação como porta-voz de demandas sindicais são conhecidos.

No Parlamento, seu comportamento em plenário comprova as ofensas, contra tudo e contra todos, como um objetivo permanente e indiscutível. A falta de agenda legislativa e a ausência de qualquer posto de liderança contrastam com o familialismo enraizado. O familialismo não se limita às vantagens colaterais do mandato parlamentar, trata-se de uma forma de exercício de poder, que traça “quatro linhas”, dentro das quais não há limites para a conduta dos poucos escolhidos e fora das quais a sobrevivência exige total submissão.

Na carreira de chefe do Executivo, os fatos comprovados são abundantes e compartilhados diuturnamente por todos nós. Sua revolta contra a autoridade é patente, seja diante de instituições superiores, como o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, seja diante dos entes federados. O mesmo quanto às prerrogativas de carreiras de Estado e órgãos autônomos da administração pública, tais como agências, autarquias ou órgãos encarregados da ordem pública e da defesa, além de sua desconsideração dos obstáculos imaginários ou reais a suas birras.

A falta de autodisciplina alcança outro patamar na Presidência. Sua oscilação entre ativismo verbal e paralisia decisória afeta questões de vida e morte, como a fome, o desabrigo e a vulnerabilidade ante a pandemia, num contexto de imprevisibilidade dos rumos da economia.

A inversão de papéis entre o mito e a realidade de sua subordinação às agendas que lhe são impostas por seus supostos seguidores é outro de seus padrões de comportamento. Ela ocorre tanto com agendas de seus pequenos grupos de interesses – religiosos, profissionais ou sindicais – quanto para sua relação com o chamado Centrão, cujos objetivos hoje predominam sobre as iniciativas presidenciais.

Quanto ao familialismo, bastaria citar todos os imbróglios compartilhados entre a família presidencial e a Polícia Federal, a Abin, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o STJ, o Coaf, para entender o que significam as “quatro linhas” dentro das quais o presidente admite operar.

Aparentemente disparatados, os objetivos da conduta presidencial redundam, na prática, em substituir o aparato constitucional da República pelos devaneios de um candidato a déspota.

Pode ele reverter um padrão de conduta tão arraigado? Reconhecer os erros, corrigir sua trajetória e se empenhar em entender as necessidades vitais do povo brasileiro? Se disso depender seu acesso ao segundo turno, pode esquecer.

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PROFESSOR TITULAR DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP

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