A caricatura que se autorreproduz

O País não pode viver sob o impacto das invencionices ou alucinações políticas

Flávio Tavares*, O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2019 | 03h00

A atividade política no Brasil mais parece uma caricatura de si própria, que se reproduz continuamente como ostra cega e se espalha contagiando os demais. Há anos padecemos a demagogia do populismo e já nos habituamos à sua teatralidade de transmitir emoções que (passageiras ou falsas) passam a valer mais do que a racionalidade profunda. Ou mais do que a realidade. Em São Paulo, Ademar de Barros e Paulo Maluf foram os modelos explícitos.

Na posse de Jair Bolsonaro, a gesticulação da primeira-dama Michelle, ao discursar na língua de sinais, emocionou não só a tradutora, mas também quem assistia de longe, pela televisão, como eu. Mas defronte ao Palácio do Planalto o confuso som dos alto-falantes fazia as palavras esbarrarem no próprio eco e parte do povo, sem entender a tradução, passou a rir. Mas rindo aplaudiam a mímica da primeira-dama. O som desengonçado acompanhava algo simpático e amigável, atenuando a exagerada “operação de guerra” montada para a festa da posse.

Aqueles emotivos minutos, porém, até sem querer, constituíam um pequeno ardil típico do exibicionismo populista. O mal (ou defeito) do populismo não é a simpatia nem o propósito, mas a capacidade de desviar atenções, transformando pequenos atos e gestos em algo grandioso.

Quando o então presidente Lula da Silva, ao inaugurar um consultório odontológico, vestia jaleco e se inclinava sobre o dentista (sentado na cadeira) imitando arrancar-lhe um dente, todos aplaudiam e a foto aparecia nos jornais. Em fábricas ele vestia macacão (que abandonara desde que optou pelo sindicato) e se fantasiava de operário. Essas pequenas simulações, em que ele parecia um super-herói das histórias em quadrinhos, desviavam a atenção dos atos de corrupção que comandava na Petrobrás e adjacências. 

Tudo era, apenas, bela extravagância populista do PT...

Agora, com um presidente eleito por ter-se apresentado como a antítese do próprio Lula, os dias seguintes à festa da posse começam a marcar o governo Bolsonaro. Já não há palavras de ódio, como na campanha eleitoral. Mas surgem paradoxos e contradições. Planos e ideias convivem com tolos exibicionismos.

Onyx Lorenzoni, ministro-chefe da Casa Civil, prega o diálogo e o entendimento “entre todos” na frente do presidente, que o escuta em silêncio de aprovação. Mas, na posse do ministro da Defesa, Bolsonaro se nega a pronunciar o nome de Fernando Henrique Cardoso, ao citar os presidentes que ampliaram verbas para as Forças Armadas - Sarney, Collor, Itamar “e depois veio aquele outro, que os senhores sabem quem foi”.

Antes, frisou que “as Forças Armadas sempre refutaram a citação de ‘sociedade civil’, pois somos uma sociedade só”. A expressão “sociedade civil”, porém, não é o conjunto dos paisanos, ou não fardados, mas sim de pessoas sem objetivo de comércio, militares incluídos. A “sociedade civil” não é o inverso dos militares, mas - sim - da sociedade das coisas, dos bens materiais.

Seria pedante e inadequado analisar a semântica de Bolsonaro e, assim, prever seus passos e ações. O presidente já mostrou que é homem de palavras duras e firmes, com sentido ou descabeladas, mas é dever de todos fazer-lhe ver que nada se diz ao vento. Num chefe de Estado e de governo, as palavras devem corresponder à realidade, não à fantasia propagandística.

Dizer, por exemplo, que de ora em diante o Brasil “abandona o socialismo” ou que “o marxismo será extirpado das escolas” é inventar situações que o País nunca viveu. As únicas iniciativas “sociais” da era Lula-Dilma - as migalhas do programa Bolsa Família e as “cotas” nas universidades - continuarão no atual governo. A bolsa receberá até 13.º salário...

Além de instituir a corrupção e o suborno como “atos de governabilidade”, serão “socialistas” as outras duas grandes obras de Lula e do PT: o desvio do Rio São Francisco e o reinado dos bancos na economia? Quando ele se gabava de que “nunca os bancos lucraram tanto” quanto em seu governo, isso seria socialismo?

O País não pode viver sob o impacto das invencionices ou alucinações políticas. Os lugares-comuns das fantasias ideológicas ou ideologizadas não substituem a realidade. A ideologização é perversão total. A ideia forjada é um ultraje ao próprio raciocínio extraído da observação concreta.

Se houver dúvida, perguntem a Antônio Paim, o pensador que (segundo o colombiano Vélez Rodríguez, nosso ministro de Educação) compõe a matriz filosófica do novo governo, junto ao direitista Olavo de Carvalho. Em plena juventude dos 91 anos, Paim é um estudioso do liberalismo e da sociedade brasileira. Formado em 1950 na velha “escola de quadros” da juventude comunista em Moscou, casou-se com uma russa e o que lá viveu pode resumir-se em sua frase: “Se minha experiência valesse, ninguém seria comunista nem se casaria...”.

Seu livro Marxismo e Descendência descreve a brutalidade da implantação do comunismo, mas adverte: “É importante dizer que Marx nada teve a ver com o que houve na Rússia”.

Por que, então, inventar aqui o tal de “marxismo cultural” ou alucinações similares em grego, latim e tupi, como fez o ministro de Relações Exteriores? E nossa “nova diplomacia” com “menos CNN e mais Raul Seixas”, como ele quer, será menos informação e mais música?

Mesmo que insista na fantasmagoria de “libertar o País do socialismo”, vale a promessa de Paulo Guedes de que “o Brasil deixará de ser o paraíso dos rentistas e o inferno dos empreendedores” - ou seja, o oposto daquilo de que se jactava Lula da Silva.

Falta saber, porém, se isso nos livrará da caricatura das aparências que o populismo criou e viceja em flor.

*FLÁVIO TAVARES É JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA EM 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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