A carta dos ex-ministros veio tarde, mas ainda é hora

E é mais que oportuna se produzir no Brasil a nova consciência sobre o imperativo ambiental

Paulo Sotero, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2020 | 03h00

Superada a atual insensatez política, a descarbonização é o rumo para tirar o País do buraco.

A bem-intencionada carta conjunta que 17 ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central divulgaram recentemente em favor da descarbonização da economia introduziu um contraste necessário entre o descalabro da atual a política de destruição ambiental e o caminho a trilhar quando se restabelecerem a governabilidade e o bom senso em Brasília. A iniciativa chegou com três décadas de atraso, mas sempre é tempo para fazer a coisa certa. Veio tarde, se considerarmos a Rio-92, a conferência da ONU realizada no Rio de Janeiro, como o marco inicial do compromisso do País com políticas de proteção prescritas nas Convenções do Clima e da Biodiversidade, saídas da conferência e que norteiam até hoje os esforços globais de preservação ambiental. A carta é mais do que oportuna, porém, se produzir no Brasil a nova consciência sobre o imperativo ambiental. Seus signatários são homens públicos de peso e credibilidade.

Para que a manifestação dos condutores da política econômica nas últimas três décadas seja levada a sério é preciso construir e executar “uma agenda concreta para tornar a economia de baixo carbono realidade e mitigar os enormes riscos associados à mudança do clima global”, como eles mesmos afirmam. Ocupados com outras urgências, nenhum dos signatários deu prioridade ao tema ambiental no período em que estiveram à frente da Fazenda e do Banco Central. 

O embaixador Rubens Ricupero, ministro do Meio Ambiente antes de comandar o lançamento do Real na Fazenda, em 1994, foi o único entre os signatários que fez da sustentabilidade ambiental tema constante de seus escritos e palestras depois que deixou as funções oficiais no País e no exterior. Vem de Ricupero o conceito de “potência ambiental”, status que o Brasil pode alcançar se produzirmos líderes e políticas capazes de organizar nossos ativos ambientais, que não são poucos nem pequenos, numa estratégia de resultados para benefício do País e do planeta. Adotada e executada ao longo do tempo, tal estratégia levará a uma redução substancial das emissões de gás carbônico derivadas da pecuária extensiva praticada no arco sul da Amazônia e no Cerrado, permitirá o uso mais racional e produtivo de nossos abundantes recursos hídricos e florestais e preparará o caminho para a expansão de atividades lucrativas como o ecoturismo, a pesca fluvial e o desenvolvimento de produtos derivados de nossa riquíssima biodiversidade. 

A deprimente realidade política do momento não nos deve paralisar. O ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga mostrou como preparar o caminho desde já ao falar, em recente seminário online, sobre as atividade do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, que criou com recursos próprios. O essencial, disse ele, é ter um plano com metas factíveis e trabalhar para sua efetivação. O mesmo se aplica a meio ambiente, clima e sustentabilidade. O Brasil não partirá do zero na elaboração de tal plano. O ex-ministro Joaquim Levy talvez seja o integrante do grupo que mais conhece o significado da ascensão da green economy. Na primeira década deste século o País reduziu significativamente o crescimento do desmatamento na Amazônia. Na segunda, teve papel vital na negociação das metas da Convenção do Clima. Nesse meio-tempo, tornou-se ator central na produção sustentável de alimentos que o mundo continuará a demandar nas décadas à frente, com aumento de produtividade e redução da pegada de carbono. 

O País tem hoje empresas, associações e executivos que compreendem a importância e o alcance dos benefícios potenciais do uso racional de recursos naturais. Há bons exemplos na pecuária e em entidades como o Ibá, associação que representa as empresas envolvidas no plantio e uso produtivo de árvores. Nunca é demais lembrar que o cerne da posição brasileira no Acordo de Paris é um ambicioso programa de restauração florestal, uma aposta ganha-ganha, centrada na exploração do potencial agro-silvo-pastoril do País, sem rival no mundo.

Nossas escolas superiores de agricultura e os vários institutos federais e estaduais que ajudaram a transformar o País em potência agropecuária no último meio século estão e seguirão ativos, uma vez superado a tóxica combinação de incompetência e má-fé que, com raras exceções, orienta os atuais dirigentes. Estes e suas deletérias prescrições precisam ser denunciados e combatidos fora e dentro do País, como já vem sendo feito no Congresso Nacional e em outras instâncias. A omissão, nesse assunto, não é uma alternativa. Ela privará o País da oportunidade única de articular seus ativos numa estratégia política e econômica inteligente e projetar liderança num tema central de nosso interesse hoje e no futuro: a segurança alimentar dos quase 8 bilhões de habitantes do planeta. É isso ou sujeitar-se às sanções comerciais e ao isolamento que virão. Não há mais dúvidas de que o desenvolvimento sustentável é uma aposta factível que integra produção com sustentabilidade. Essa é a visão das cadeias produtivas globais, das quais seremos excluídos se não fizermos a coisa certa. 

JORNALISTA, É PESQUISADOR SÊNIOR DO BRAZIL INSTITUTE NO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR  SCHOLARS, EM WASHINGTON

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.