A coroa do novo vírus

Não se fala em localizar as origens do novo horror e alertar para que não se repita em ciclos

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2020 | 03h00

O fantasma que percorre o planeta como aflita maldição, semeando pânico, tem nome, cara e origem, mas fazemos de conta que surgiu do nada, como inesperada surpresa.

Em 1920, a “gripe espanhola” matou mais de 1 milhão de pessoas mundo afora e, no Brasil, vitimou até o presidente da República recém-eleito e antes da posse. Num tempo em que não havia antibióticos nem os recursos atuais da medicina eletrônica, a ciência buscou e localizou as causas da tragédia, gerada na Europa pela pestilência dos insepultos cadáveres da Grande Guerra de 1914-1918.

Agora, quando a ciência avançou e superou atrasadas crendices, passamos a dar mais importância às consequências do que às causas concretas que produziram a tragédia do coronavírus. Mais estranho ainda, imprensa, rádio e televisão analisam mais do que tudo as consequências econômico-financeiras provocadas pelo pânico do vírus. A queda nas bolsas de valores ou no produto interno bruto (PIB) tem prioridade sobre as causas e origens prováveis da epidemia, como se a tragédia atual fosse assunto restrito aos cifrões das estatísticas financeiras, não um problema de saúde e vida.

Não se fala em localizar as origens do novo horror epidêmico e, assim, alertar para que o fenômeno não se repita em ciclos.

Nada surge das nuvens, como chuva. Não por acaso, o coronavírus só podia ter nascido na China, que desprezou a natureza para se industrializar e alimentar uma população que, antes, padecia fome. Os chineses optaram por uma falsa visão de progresso e ao inverterem a ordem natural colocaram o dinheiro (ou a subsistência) do dia a dia acima da saúde e da vida em si.

Nos últimos anos a China percebeu o erro e buscou energias limpas. Primeiro, evitou explorar o carvão mineral, que cobrira de cinzas campos e cidades. Em centros urbanos como Pequim ou em vilarejos é comum sair às ruas com máscaras de proteção, como as usadas hoje em Wuhan, matriz do coronavírus.

A soma das consequências, porém, já havia iniciado o processo pernicioso que gerou o vírus que nos amedronta como fantasma em pleno século 21, em que pensávamos “saber tudo de tudo”. Havíamos esquecido, porém, que toda epidemia é consequência da degradação do meio ambiente pela sujeira profunda, seja de que tipo for. Começa no lixo caseiro, aumenta no desleixo das indústrias e da mineração e chega aos agrotóxicos que consumimos nos alimentos. Na moderna sociedade de consumo, em nome do “conforto”, a degradação está no ar, nas águas ou terras e nos assalta no lar, mas agimos e atuamos como quem não se banhe e use perfume francês para iludir o fedor. 

No pânico atual, desviamos o foco de atenção e, sem buscar as causas profundas da tragédia, damos atenção a seu significado na queda das bolsas de valores ou do PIB. Abandonamos o essencial - alertar para as causas concretas que geraram o vírus - e valorizamos as consequências econômico-financeiras, algo paralelo que não combate nem evita a tragédia.

Esquecemos, até, o óbvio: higiene não causa doenças, muito menos pestes de tipo medieval, como agora. Fora disso, tudo se limitará a usar máscaras para disfarçar a insensatez de ignorar as causas do horror. 

As máscaras de hoje na cidade-matriz do vírus, na China, nem sequer mascaram a tragédia.

A desatenção à essência do que sejam as causas vai além do novo vírus. Está, também, noutros dramas diários. Neste verão, por exemplo, vem diminuindo a areia das praias de Guarujá, Ilhabela e outras, com o mar avançando sobre o que antes era o descanso dos banhistas. No Nordeste, “resolveram” o problema com diques de areia, que em poucos anos o mar vai tragar, de novo.

Não se viu a causa, o aquecimento global, em que o gelo do Ártico e da Antártida se derrete e eleva o volume dos oceanos. Sabe-se do fenômeno há décadas, mas cada um de nós nada faz e nos contentamos em anunciar o horror.

O extravagante desperta sempre atenção e - se não nos cuidarmos - talvez o aplaudamos, até discordando. Quem leve elefantes à Avenida Paulista ouvirá palavrões, mas também mil gracejos, que da ironia passam à admiração. Ou até ao aplauso, pois o estranho e despropositado tem adeptos fanáticos.

O Brasil está cheio de amantes do inusitado inconsequente. Agora, Jair Bolsonaro acusou o Congresso Nacional por “impedi-lo de levar adiante” algumas medidas que ele julga “importantes”. Ao enumerá-las, anunciou só trivialidades sem maior ingerência no desenvolvimento do País, como a validade da carta de motorista por dez anos. Mas nada disse das “milícias” que dominam o Rio de Janeiro pela violência e a chantagem e até chamou de “herói” o “chefão miliciano” Adriano da Nóbrega, suspeito de participar do assassinato da vereadora Marielle.

Novos vírus pululam por aqui, às vezes com coroas, até.

JORNALISTA E ESCRITOR,  PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA 

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