A covid na Amazônia profunda

A depressão e o medo, pela falta do devido atendimento médico, são devastadores

Virgilio Viana *, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2020 | 03h00

A imagem da covid-19 na Amazônia ficou marcada pelas cenas da crise nos hospitais das suas grandes cidades, como Manaus e Belém. Entretanto, talvez a crise mais aguda seja a que está acontecendo na Amazônia profunda, nas comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas. Essa realidade requer mais atenção e ação, durante a emergência e no período pós-emergência.

Inicialmente, é importante relembrar que a Amazônia profunda tem uma realidade absolutamente distinta de todas as demais do Brasil, por diversos aspectos. O primeiro é a logística e o isolamento. Numa região que é mais da metade do território do nosso país, grande parte não dispõe de estradas, o acesso é apenas fluvial ou aéreo. As comunidades mais distantes de Manaus, por exemplo, ficam a até 15 dias de viagem de barco. As mais próximas ficam a poucos dias ou, no mínimo, a muitas horas de viagem até a sede municipal mais próxima. As sedes municipais, por sua vez, são interligadas à capital por voos irregulares, normalmente em aviões monomotor. Além disso, vale destacar as muitas diferenças culturais, sociais e econômicas. Apenas para ilustrar, a Amazônia profunda é o lar de cerca de 180 etnias, que falam 17 línguas distintas.

É nesse contexto que a chegada da covid foi devastadora. Além das particularidades já mencionadas, o SUS para as comunidades de populações tradicionais (extrativistas, quilombolas, caboclos e ribeirinhos, dentre outros) é extremamente precário. Normalmente se limita a um agente comunitário de saúde, em geral com pouca ou nenhuma formação técnica, a quem compete fazer o que puder, com uma caixa de remédios na mão. A atenção básica de saúde ofertada por equipes médicas e odontológicas é feita de forma esporádica e irregular, com pouquíssimas exceções. Em alguns casos existem unidades básicas de saúde na forma de embarcações das prefeituras, que fazem atendimentos de maior complexidade. Esse tipo de atendimento também é feito por barcos da Marinha, ONGs e organizações religiosas.

No caso dos povos indígenas a situação é um pouco melhor, apesar de estar longe de ser adequada. Existe uma estrutura específica do Ministério da Saúde, por meio dos Distritos de Saúde Indígena, que contam com equipe de saúde e estruturas física e de logística. Na maioria dos casos, as aldeias indígenas têm uma atenção básica de saúde de qualidade superior à ofertada às comunidades de populações tradicionais.

Além dos problemas fisiológicos causados pelo vírus, o impacto psicológico também tem sido gigantesco. A depressão e o medo, causados pela certeza de que os doentes não contarão com o devido atendimento médico, são devastadores. Vale lembrar que em muitos casos a taxa de suicídios de indígenas, antes da covid, já era 18 vezes maior do que a média nacional.

A crise da covid escancarou o óbvio: precisamos repensar o SUS para a Amazônia profunda. É necessária uma estratégia diferenciada tanto para a emergência quanto para o período pós-emergência. Felizmente, existem diversas iniciativas em curso que apontam os caminhos do que deve ser feito.

Um exemplo é a Aliança Covid-Amazonas, articulada pela Fundação Amazonas Sustentável e com a participação de 88 instituições, envolvendo associações de moradores locais, movimentos sociais, prefeituras, órgãos dos governos estadual e federal, universidades e instituições de pesquisa, empresas privadas, ONGs e a cooperação internacional. Essa aliança já beneficiou 1.048 comunidades e aldeias, 29 etnias, 39 territórios, incluindo terras indígenas, unidades de conservação federais e estaduais, em 32 dos municípios do Amazonas.

A estratégia de ação tem sete eixos: redução do contágio, saúde mental, atenção básica de saúde nas comunidades e aldeias, transporte de emergência para as sedes municipais, atendimento hospitalar no interior, transporte de emergência para UTI em Manaus e agenda pós-calamidade.

Dentre as inúmeras lições aprendidas pelas ações da aliança, vale destacar o que chamamos de componentes básicos de um novo SUS da Floresta: formação técnica de agentes de saúde, postos de telessaúde com antenas de internet e energia solar, farmácia convencional e fitoterápicos, e ambulanchas com combustível para transporte de emergência. É necessário um amplo debate acerca da estrutura e operacionalização do SUS da Floresta, incluindo um novo marco regulatório.

No meio de tanta dor e sofrimento, temos uma oportunidade de reparar as injustiças e desigualdades em relação aos povos indígenas e populações tradicionais. Esse desafio começa pela saúde, mas deve incluir também as agendas de educação, geração de renda, conservação ambiental e adaptação às mudanças climáticas. É hora de transformar a preocupação da sociedade civil e de empresas com o desmatamento, as queimadas e a invasão de terras indígenas e unidades de conservação da Amazônia numa agenda positiva. Precisamos de novas alianças, nacionais e internacionais, em prol de um futuro mais justo, próspero e sustentável para a Amazônia profunda.

* SUPERINTENDENTE-GERAL DA FUNDAÇÃO AMAZONAS SUSTENTÁVEL (FAS)

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