A crise pessoal do nosso presidente

Menosprezar, diminuir e ofender o Congresso Nacional merece o mais amplo repúdio

Aloísio de Toledo César*, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 03h00

O presidente Jair Bolsonaro parece estar tomado por uma crise de identidade. Realmente, dá a impressão de ser prisioneiro de furiosos e contraditórios tormentos, que o levam a passear pacificamente de motocicleta pelo Guarujá ao mesmo tempo que decide abrir no País uma guerra política de imprevisíveis e até mesmo trágicas consequências. Ele deixa isso claro ao convocar a população brasileira para ato público, no dia 15 de março, destinado a defendê-lo e ao seu governo contra o Congresso Nacional.

Atiçar a população brasileira para um confronto contra o Poder responsável pelo exercício da democracia no Brasil significa claramente a preferência por governar sozinho, como grande beneficiário. Ele parece querer impor a imagem de “eu sou o Brasil, eu sou honesto, limpo, amo a Deus e não posso deixar que nosso país continue nas mãos desses políticos desonestos que ousam se contrapor ao meu governo”.

A empreitada em que se atira de menosprezar, diminuir e ofender o Congresso Nacional é merecedora do mais amplo repúdio, porque a atuação suprimida de tão importante órgão democrático representaria, tal como aconteceu na década de 1960, a prevalência da vontade pessoal de um ditador, ou de um grupo que ama a ditadura, com a supressão do sagrado direito de voto da população brasileira.

Bolsonaro talvez não se tenha dado conta de que sua eleição derivou em grande parte da injusta e dolorosa facada que sofreu durante a campanha. Apesar de tormentosa, a facada tirou-o do combate político, transformou-o em vítima e impediu-o de comparecer aos debates entre os candidatos. Ou seja, a população votou em quem pouco conhecia e agora conhece na sua integridade por atos absurdos, como o de jogar a população contra o Congresso Nacional (e contra ele próprio).

Naquele momento da disputa eleitoral, a população brasileira estava em grande parte contaminada pelo desejo comum de livrar o País daquele partido político que estimulou a corrupção, destroçou a economia e fez aumentar, simultaneamente, a pobreza e o hoje imenso número de desempregados.

A consequência de termos um presidente da República que não era bem conhecido provoca medo, angústia e lança visões de um futuro marcado por seu desequilíbrio e pela insensatez.

Percebe-se que Bolsonaro está procurando cada vez mais impor uma imagem de si mesmo que mais chame a atenção do grande público. Assim, descontraído, passeia de motocicleta pelo Guarujá talvez achando que com esse gesto mostrará ao grande público a imagem que ele vê de si mesmo.

Em tempos passados o poder era um conceito impessoal, quase anônimo, e graças a essa característica teve início a democracia, que tanto amor e respeito merece. Infelizmente, a impessoalidade do poder chegou ao fim e por isso hoje assume cada vez mais a fisionomia do dirigente que o exerce.

Em verdade, há muitos casos em que o dirigente máximo quer mesmo encarnar o poder, pois se concentra egoisticamente e procura causar a equivocada impressão de que ele é o país. Nosso presidente da República, pelo jeito, caiu nessa tentação e está chegando a extremos perigosos, como a atitude de exortar a população brasileira a comparecer às ruas para demonstrar seu inconformismo com o Congresso Nacional.

O imortal Freud fez curiosa afirmação a respeito da conduta do dirigente que busca mais ser amado do que governar. “A maioria dos homens sente a imperiosa necessidade de uma autoridade que possa admirar, diante da qual se possa inclinar e que a domine e até mesmo por vezes a maltrate. A psicologia do indivíduo nos informou de onde vem essa necessidade coletiva de uma autoridade: ela emana da atração pelo pai. Todos os traços de caráter com que pretendemos adornar o grande homem são traços peculiares ao personagem paterno. Firmeza de ideias, força de vontade, ação resoluta, isso faz parte da imagem paterna.”

Divisores do poder em território brasileiro, os filhos de Jair Bolsonaro bem se enquadram no modelo freudiano. Na ausência de ideologias, apagadas pelo tempo, o poder, que antes era impessoal e quase anônimo, hoje está reduzido a uma rivalidade entre pessoas, afastado o confronto entre teses e argumentos. Essa personalização reduz o debate político e o situa tão somente entre pessoas, ou seja, certo líder de um lado (Lula, por exemplo) e Bolsonaro de outro.

Isso nos leva a perguntar aonde foram parar as novas lideranças, porque às vezes parece haver uma repulsa à atividade política. No livro A Era do Direito Positivo, o jurista João Antonio da Silva Filho lembra: “O fazer política não pode ser um meio para garantir vida boa para alguns privilegiados. Pelo contrário, deve ser um ato de vontade daqueles que optaram por fazer desta atividade um instrumento para a edificação de um novo tipo de relação entre as pessoas, onde a ética e o respeito às diferenças sejam a chave para fazer diminuir as desigualdades sociais”.

* ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR É DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP; FOI SECRETÁRIO DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SP. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM

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