A desconstrução da Europa

Isso pode ser muito mais difícil do que seus inimigos previam. Aí está a prova do Brexit

Pedro Cavalcanti*, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2019 | 03h00

Há pouco mais de 69 anos, precisamente em 9 de maio de 1950, a França propôs à Alemanha e aos outros países europeus a adesão a um acordo que reunisse os recursos de carvão e aço sob uma administração em comum. Era o primeiro passo realista para a união das nações europeias na longa caminhada semeada de conquistas. Isso até os dias de hoje, quando o Brexit e a presença inquietante dos partidos nacionalistas nas últimas eleições do Parlamento Europeu fazem ressurgir os fantasmas da desconstrução.

O êxito fundamental da União Europeia, muitas vezes negligenciado, é o longo período de sete décadas de paz, interrompido apenas por conflitos cruéis, mas isolados, na região dos Bálcãs. Acostumadas à boa convivência, as novas gerações assumem esse estado de coisas como natural e imutável, quando, na verdade, é fruto de um esforço extraordinário de homens de boa vontade. Citam-se de hábito, e merecidamente, os nomes de Maurice Schumann, pela França, Adenauer, pela Alemanha, De Gasperi, pela Itália. Mas há inúmeros outros menos conhecidos, mas nem por isso menos importantes. Entre eles, o francês Jean Monet, cuja trajetória brasileiros interessados podem conhecer por suas memórias em A Construção da Unidade Europeia, editado pela Editora Universidade de Brasília.

Figura curiosa, de formação oposta à que se atribui aos tecnocratas europeus, abandonou a escola aos 16 anos pela vida prática de vendedor internacional dos conhaques produzidos pela empresa paterna. Visitou numerosos países tanto na Europa como na América do Norte, no Oriente Médio e no Extremo Oriente. O conhecimento de mentalidades diversas em negociações objetivas seria de extrema utilidade quando passou a se interessar pela diplomacia.

Durante a 2.ª Guerra permaneceu na Inglaterra e, terminado o conflito, dedicou-se à construção da Europa.

Não seria uma tarefa fácil, as feridas mal cicatrizadas do conflito recém-terminado dificultavam a aproximação amistosa entre franceses e alemães. Por outro lado, a situação dos países europeus era tão desastrosa que exigia soluções inovadoras. O próprio plano de reconstrução econômica idealizado pelo general norte-americano George Marshall, essencial para a reconstrução da economia da Europa Ocidental, exigia certa cooperação entre os países beneficiados. A construção de algo maior e mais sólido parecia inevitável diante das circunstâncias dramáticas do momento. Como nota Jean Monet, “a coexistência dos blocos era precária então e o diálogo Leste-Oeste não conhecia outra regra a não ser a força, cuja prova acabava de ser decidida em Berlim em benefício dos ocidentais após um ano de bloqueio. A ponte aérea americana tinha empregado meios militares fantásticos que fizeram os soviéticos ceder em maio de 1949. Mas haveria decididamente duas Alemanhas, cada uma incorporada a uma zona estratégica”.

Se os países europeus quisessem ter sua voz no quadro diplomático que se esboçava, seria necessário que se unissem. Todos pareciam concordar, com exceção dos ingleses. Depois de longa negociação, recusaram a adesão à Europa por não suportarem a ideia de uma autoridade supranacional. Viviam ainda apegados à ideia do Império Britânico grandioso e independente dos seus vizinhos do outro lado do Canal da Mancha.

Um político britânico da época, citado por Jean Monet, expunha uma posição taxativa: “Estamos mais perto da Austrália e da Nova Zelândia que da Europa pela língua, pela origem, pelos costumes, pelas instituições, pelas concepções políticas e pelos interesses”.

Foram necessários 25 anos desde o primeiro acordo entre a França e a Alemanha até que o referendo britânico de junho de 1975 consagrasse uma situação que para a maioria se tornara evidente, a Grã- Bretanha não tinha mais escolha entre um declínio solitário e a integração num conjunto mais amplo. Mas, como se diz vulgarmente, o mundo dá muitas voltas e, decorridos mais 44 anos, surge o Brexit, ao cabo de um processo que ninguém entende muito bem, a começar pelos próprios ingleses, e arrasta-se depois de tanto tempo que ninguém sabe como acabará.

Parece certo, no entanto, que o descontentamento manifestado pelo Brexit não é um fenômeno isolado, mas algo que transparece em vários países pela ascensão de partidos de extrema direita contrários aos valores da União Europeia. Entre eles, a Liga (Itália), a Reunião Nacional (França), a AfD (Alternativa para a Alemanha), a Vox (o novo partido direitista da Espanha), o Partido Popular Dinamarquês, o Partido dos Verdadeiros Finlandeses. Às vésperas das eleições parlamentares europeias conseguiram reunir numa cerimônia em Milão delegações da Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Dinamarca, Eslováquia, Estônia, Finlândia, França, Holanda e República Checa.

Todos os representantes pareciam unidos em torno de certas palavras de ordem, como a vontade de reforçar a política anti-imigração pela formação de um bloco parlamentar de extrema direita. A intenção anunciada seria constituir um bloco no Parlamento Europeu para reforçar a soberania dos Estados-membros.

Mas mesmo nessa questão dos imigrantes a formação de um bloco já começa duvidosa quando se passa a falar em sistema de cotas para recebê-los. Ademais, como observou Gilles Lapouge, correspondente do Estado, em artigo recente, “essas tropas de direita e de extrema direita fervilham, como os partidos clássicos, com rivalidades, ódios, ciúmes, ambições que regularmente movem a paisagem política”.

Os líderes dos principais partidos da extrema direita, como Marine Le Pen, da França, Matteo Salvini, da Itália, e Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, não têm o temperamento de negociadores. Ao contrário, populistas exacerbados, estão sempre prontos a usar fórmulas radicais, que afastam possíveis aliados. Para os amigos da Europa, essa é uma boa notícia.

Desconstruir a Europa pode ser muito mais difícil do que seus inimigos previam. Aí está a prova do Brexit.

*JORNALISTA E ESCRITOR

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