A desertificação pode ser modelo?

Nossos governantes vêm tratando a crise do clima com palavras rebuscadas, mas sem conteúdo concreto.

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2021 | 03h00

Em tempos idos, nosso país se chamou Vera Cruz e Terra de Santa Cruz e passou à denominação atual porque aqui crescia o soberbo pau-brasil. O vermelho que tingia tecidos tinha cor de brasa, ou brasil, portanto. No idioma português daqueles séculos 16 e 17, “brasileiro” designava o comerciante de pau-brasil. O gentilício de quem aqui nascia era “brasiliense”.

Esse lucrativo negócio devastou nossa costa e transformou o Nordeste num árido deserto, em que a única medida para tudo era a cobiça. Os grupos que habitavam a floresta foram empurrados para o interior do território como se fugissem do horror, tal qual no Afeganistão fogem, hoje, do taleban. Na época, a “boa floresta” era a floresta derrubada. O pau-brasil tingia tecidos e as demais árvores serviam de lenha.

Naqueles tempos, esta regra expressava uma aparente “normalidade” que o lento passar dos anos demonstrou ser perniciosa. E, hoje, aquele território outrora exuberante em cobertura florestal tornou-se terra calcinada em que as populações rurais cozinham e bebem água vinda de longe em caminhões-tanque. Os retirantes do Nordeste que se dirigem a São Paulo e ao Sul mostram uma migração forçada pela nova geografia paupérrima da região, lá implantada pela cobiça humana.

A prática de derrubar bosques e florestas a esmo, no entanto, continua. Ou até se expandiu na era atual, mesmo que saibamos das consequências terríveis que ocasiona. Mudou apenas o pretexto, invocado como “finalidade”.

Hoje, a indústria têxtil usa a química para colorir e já prescinde do pau-brasil para obter a vermelhidão da brasa. No entanto, seguimos derrubando florestas na região amazônica, no Pantanal mato-grossense, na Mata Atlântica ou onde mais for, sem falar nas árvores das cidades. A devastação cresce e mostra malefícios ainda mais brutais e mais daninhos do que os de séculos atrás. O garimpo de ouro, por exemplo, contamina os rios da Amazônia com mercúrio, numa devastação mais brutal e perversa que a da época do pau-brasil, pois afeta diretamente a saúde das populações autóctones.

O pretexto ou alegação de agora é outro, mas, em verdade, é pior e mais daninho, até, pois hoje temos conhecimento e consciência científica dos danos que ocasiona. No Pantanal, região única no planeta com alagamento perene, chega-se ao absurdo de propor transformar a área numa sucessão de campos de capim rente ao chão para criação de gado e, desta forma, “evitar” ou “impedir a propagação” de incêndios, como os dos últimos tempos…

Não se trata de proposta ao acaso, feita por adventícios ou inocentes meninos imberbes, mas algo apresentado como “solução” pelos que nos governam.

Nossos governantes vêm desconhecendo a crise do clima, tratando-a com palavras rebuscadas, mas sem conteúdo concreto. O discurso de Jair Bolsonaro na recente assembleia-geral da ONU mostrou como o presidente toma o meio ambiente unicamente como propaganda exibicionista, em que as palavras são apenas sons ao vento e jamais compõem ações efetivas de governo.

Neste quadro desolador, o governo central já não orienta a população nem indica ou propõe alternativas e caminhos. A gravidade da crise climática, porém, é tão profunda e ampla que o próprio aglomerado empresarial clama, agora, por soluções e propõe medidas.

Assim ocorreu dias atrás, quando presidentes de 107 grandes empresas nacionais e estrangeiras e dirigentes de dez entidades setoriais assinaram carta aberta propondo um maior protagonismo do Brasil nas negociações em defesa do clima. Ainda que a preocupação desses grandes empresários seja mais econômica do que ambiental, significa que o tratamento das mudanças climáticas deve se aprofundar e se acelerar. É como se o grande empresariado dissesse “já que o governo federal nada vê, nós indicamos o caminho”.

De fato, é um grito de reprimenda contra o governo Bolsonaro por continuar ignorando as mudanças climáticas, sem entendê-las como a mais brutal ameaça à normalidade da vida no planeta. Chamado de Empresários pelo clima, o documento busca fixar a posição do Brasil na próxima conferência da ONU sobre o clima, em novembro, em Glasgow, na Escócia.

A ciência alerta e adverte sobre o perigo das mudanças do clima. A continuar no ritmo atual, não serão só as geleiras do Ártico e da Antártida que vão derreter, elevando o nível dos mares. Faltarão alimentos, que se desenvolvem regulados pelo clima. O planeta tornar-se-á raquítico e, com ele, cada um de nós.

A cegueira humana, porém, não percebe o óbvio e corre enlouquecida em busca do lucro monetário, num capitalismo predatório em que a cobiça é o único fim, como nos séculos seguintes à chegada de Pedro Álvares Cabral.

Ou vivemos hoje numa nova Macunaíma? Já em 1928, Mário de Andrade observou que “o brasileiro não tem caráter por não possuir civilização própria nem consciência tradicional”.

Só assim se explica que o deserto seja nosso modelo.

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JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 e 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UnB

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