A desinformação e o pluralismo

Diante dos enormes desafios atuais, não há saída senão estar aberto ao diálogo e à confiança

Nicolau da Rocha Cavalcanti *, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2019 | 03h00

O mundo anglo-saxão sempre foi mais rígido com a mentira que o mundo latino. O presidente americano Bill Clinton que o diga. Por pouco não foi removido do cargo, num processo de impeachment encerrado em 1999, sob a acusação de não ter dito a verdade num depoimento e de ter dificultado que outros dissessem a verdade. Hoje a questão da veracidade tem contornos muito mais complexos que duas décadas atrás. No mundo inteiro, seja qual for o grau de rigidez do país, observa-se o fenômeno da desinformação. Há uma contínua produção e difusão de mensagens distorcidas e equivocadas, a poluir o ambiente social e o debate público.

Ela não causa apenas danos informativos. A desinformação causa confusão e desconfiança, pondo em risco a existência do próprio espaço de diálogo. Não é apenas o debate que fica empobrecido pela má qualidade das mensagens em circulação. Num ambiente contaminado por fake news e, portanto, marcado pela desconfiança, verifica-se menor tolerância com as diferenças. Há uma redução do âmbito do pluralismo, com a propensão a desqualificar tudo o que contraria a própria visão de mundo.

Mal se começa a ler um artigo e, seja em razão do tom, de um termo específico ou do exemplo mencionado, surge impetuosa a sentença sobre o texto: tendencioso, distorcido, mentiroso. E isso pode ocorrer com a notícia que se lê, a mensagem que se recebe pelo telefone ou a conversa no trabalho. Esse mecanismo de defesa, acionado por gatilhos mentais e afetivos, sempre está presente na comunicação humana. Mas o cenário de desconfiança potencializa sua ocorrência, estreitando a abertura mental ao desconhecido e ao diferente.

A redução do espaço do pluralismo produz efeitos desastrosos. Em primeiro lugar, aquilo que, em tese, seria uma proteção pode nos deixar mais vulneráveis à manipulação. E a razão é simples: os difusores da desinformação valem-se de nossos bloqueios mentais para suas manobras comunicativas. Para desautorizar uma mensagem, em vez de refutar os argumentos ou informações nela presentes, pode ser mais eficaz (e rápido) simplesmente desqualificá-la com um carimbo simplista. Alguns casos frequentes: fundamentalismo, fascismo, comunismo, marxismo cultural, ideologia de gênero, ecologismo, leniência com a impunidade. É preciso ter cuidado. Uma verdade pode ser equivocadamente desprezada pelo simples fato de ter sido tachada negativamente.

Além do estreitamento de visão - deixamos de ver coisas evidentes, que estão à nossa frente, por mera aversão prima facie -, a redução do espaço do pluralismo afronta a ideia de sociedade.

Cada um é livre para conviver com quem quiser. Mas ao limitar a convivência, por exemplo, a pessoas que pensam e votam da mesma forma, há um juízo tácito de que o diferente não merece ser escutado e pode ser escanteado.

Tal exclusão tem consequências sobre o tecido social, que fica esgarçado pela falta de diálogo e de compreensão. Sem um amplo pluralismo não se pode falar, a rigor, em corpo social. Uma sociedade em que não há convivência com os diferentes deixou de ser uma sociedade. Restariam apenas grupos segregados, cada vez mais estreitos e fechados.

Limitar a convivência aos seus iguais também tem consequências sobre cada indivíduo, que se vê submetido a um estreitamento da racionalidade. Razoável seria apenas o seu pensamento. O restante seria ignorância, barbárie, preconceito. A negação do pluralismo, ao desautorizar quem pensa de forma diferente, configura-se, assim, como negação das próprias liberdades de pensamento e de expressão.

Veja-se, por exemplo, o tom agressivo utilizado contra as diferentes posições ideológicas ou políticas. A diferença é encarada como afronta pessoal ou, até mesmo, como desvio moral. Ainda que a agressividade venha sob a aparência de justa revolta, indignação contra preconceitos históricos ou mera retribuição a um ataque sofrido, ela é sempre violência. Ela é sempre desprezo pelo outro. E o outro pode ser o primo, o vizinho ou o ministro do Supremo. A mera discordância em relação ao voto de um magistrado parece autorizar um juízo definitivo sobre sua falta de caráter.

Há ainda os que desautorizam toda opinião ou proposta radicalmente contrária às suas ideias, como se fosse uma violação da liberdade, dos direitos humanos ou, vejam só, da Constituição de 1988. Em tese, apoiam o pluralismo, mas não toleram nada que escape muito do seu espectro ideológico. Ora, um Estado Democrático de Direito é sempre profundamente liberal e tolerante com as diferenças.

Numa sociedade de fato plural, não faz sentido reclamar do aumento de pessoas e grupos que promovem ideias e projetos opostos às próprias ideias e sensibilidades. A ocorrência de diferenças, até mesmo de polarizações, é sintoma de uma sociedade saudável e politicamente madura.

O perigo não está nas diferenças, por mais divergentes que elas sejam, e, sim, na ausência de diálogo e na tentativa de impor determinada posição. Por isso, zelar pelo pluralismo é também relativizar e contextualizar as próprias ideias políticas, fugindo de apreciações simplistas ou maniqueístas. Cheia de matizes e possibilidades, a realidade é insubmissa a esquemas dogmáticos.

Nesse cultivo do pluralismo, o jornalismo tem um papel decisivo. Ao produzir informação confiável e prover o debate público com diversidade e racionalidade, ele atua em sentido oposto ao fenômeno da desinformação. Com uma curadoria qualificada, o jornalismo também amplia o nosso olhar, pondo-nos em contato com o que diverge de nossa visão de mundo e de nossas concepções ideológicas. A leitura de um bom jornal sempre nos tira da zona de conforto.

Diante dos enormes desafios atuais, não há outra saída senão estar aberto ao diálogo e à confiança. A desinformação não é capaz apenas de confundir nosso entendimento. Ela pode subtrair nossa humanidade.

* ADVOGADO E JORNALISTA

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