A doutrina do esgoto e a reputação do Brasil

Bolsonaro dificulta combate ao vírus, ameaça o ambiente e assusta investidor

Rolf Kuntz *, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2020 | 03h00

Brasileiro pula no esgoto, sai, mergulha e nada acontece com ele, disse o presidente Jair Bolsonaro em 26 de março, minimizando a pandemia e criticando a quarentena. Até aquele dia 77 pessoas haviam morrido de covid-19 e 2.915 casos de infecção tinham sido confirmados, segundo o balanço federal. Não se sabe quantos brasileiros se banharam no esgoto a partir daí nem quantos tomaram a cloroquina receitada por sua excelência. Mas três meses depois 55.102 haviam morrido e os casos acumulados eram 1,23 milhão, informou a imprensa na manhã da última sexta-feira.

Esses números são de secretarias estaduais. Um consórcio jornalístico passou a consultar essas fontes quando o governo central, depois de perder dois ministros da Saúde em menos de um mês, limitou a comunicação sobre casos e mortes.

A piora das expectativas econômicas acompanhou a expansão do contágio e a multiplicação das mortes. Ao atualizar suas projeções, o Fundo Monetário Internacional (FMI) passou de 5,3% para 9,1% a contração estimada para o produto interno bruto (PIB) do Brasil neste ano. O primeiro número foi divulgado no começo de abril, quando o País, assim como outros da região, registrava o impacto inicial da covid-19. A nova estimativa foi anunciada na última quarta-feira.

O alongamento da pandemia e da incerteza sobre sua evolução foi levado em conta na revisão das projeções para 2020 e 2021, disse a economista-chefe do FMI, Gita Gopinath. Esse fator foi relevante no caso brasileiro e nos de outros países, acrescentou. Dados populacionais do Brasil e de outros emergentes, segundo ela, também foram vistos como um desafio adicional no combate ao novo coronavírus.

Diplomacia e técnica predominam, quase sempre, nas declarações de funcionários graduados do FMI. Sem surpresa, as explicações apresentadas na entrevista coletiva de quarta-feira ficaram longe de qualquer crítica às políticas e à qualidade das lideranças. Mas o enfrentamento da pandemia no Brasil tem, obviamente, contrariado as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos especialistas. O FMI tem ecoado essas orientações e sua diretora-gerente, Kristalina Georgieva, há algum tempo juntou-se ao diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, numa entrevista virtual – ela em Washington, ele em Genebra.

Os números do Brasil estão hoje entre os piores do mundo, quando se examinam os balanços de mortes e de casos, mesmo com as falhas de contagem. A política sanitária brasileira tem sido criticada até pelo presidente americano, Donald Trump, apesar de seu péssimo currículo nessa área. Não há como avaliar a expansão da pandemia no território brasileiro sem levar em conta o negacionismo do presidente Jair Bolsonaro e seu comportamento.

Nas últimas semanas o presidente apareceu algumas vezes com a máscara recomendada por médicos e autoridades sanitárias. Mas com frequência muito maior ele foi visto sem máscara no Palácio do Planalto, na saída do Alvorada, em passeios por Brasília e em manifestações golpistas. Passeatas pró-Bolsonaro e contra a democracia têm sido realizadas por pessoas sem máscara e sem cuidados higiênicos.

A mesma desatenção ao perigo tem sido observada no dia a dia de muitas cidades, especialmente nas áreas comerciais e no transporte público. O erro, nesse caso, ultrapassa o descuido em relação à própria segurança. Envolve uma clara agressão ao direito de outras pessoas, expostas ao risco de contágio e de morte. Seria esse o comportamento normal se o presidente e seus auxiliares dessem o exemplo necessário e postassem mensagens corretas em redes sociais?

Ao expor sua tese do esgoto, em março, o presidente criticou a quarentena, propôs o isolamento vertical e defendeu a retomada imediata da maior parte dos negócios. O País assistiu a uma transfiguração. Durante mais de um ano Bolsonaro havia desprezado as questões econômicas. Em 2019 o PIB cresceu 1,1% – menos que em 2017 e 2018, quando o crescimento anual havia sido de 1,3%. Com a nova crise, no entanto, o risco eleitoral poderia aumentar sensivelmente.

Armar a população havia sido, para Bolsonaro, uma preocupação dominante em seus primeiros meses na Presidência. Entre janeiro de 2019 e abril de 2020, lobistas e empresários do setor de armas participaram de 73 audiências e reuniões em gabinetes do governo, segundo informou o Estado na última terça-feira. Mas o desinteresse em relação à economia pode parecer um pecado menor se comparado aos prejuízos impostos pelo presidente à reputação do Brasil.

Além de sujar o nome do País, as ações do governo ameaçam as exportações do agronegócio, misturando a imagem de um setor eficiente e competitivo à de grileiros e outros devastadores. Além disso, a irresponsabilidade presidencial assusta investidores e desarranja o câmbio. Na semana passada, instituições com ativos estimados em US$ 3,75 trilhões ameaçaram retirar seus investimentos se o governo mantiver as políticas contra o ambiente e os direitos humanos. Jogar no esgoto o nome do País pode sair muito caro para todos.

* JORNALISTA

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