A educação como valor permanente

Professor Jorge Nagle morreu amargurado com a situação educacional brasileira

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA*, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2019 | 03h00

Consta que Bertolt Brecht, numa de suas magistrais tiradas, escreveu: “Não basta ter sido bom quando se deixa o mundo, é preciso deixar um mundo melhor”.

Não são muitas as pessoas que mereceriam o elogio implícito na frase. Fazer o mundo melhor é difícil, requer talento, determinação e resiliência, passa pela habilidade de reunir colaboradores e pela sabedoria de modular o tempo, para que as mudanças amadureçam e seus frutos sejam conhecidos e valorizados.

O professor Jorge Nagle, que faleceu no último dia 21 de junho, aos 90 anos de idade, foi uma dessas pessoas. Deixou marcas fortes por onde passou, graças ao estilo agregador e à coragem de enfrentar circunstâncias adversas.

Nagle foi um apaixonado estudioso da educação. Com a publicação de sua tese de livre-docência (1966), Educação e sociedade na Primeira República, tornou-se uma referência na história da educação paulista. A escola pública foi seu foco permanente, na versão republicana que tanta dificuldade teve (e tem) de se fixar no Brasil. Sua utopia era a existência de uma escola para todos, livre de imposições ideológicas ou religiosas e de influências políticas espúrias: uma escola que interagisse com a sociedade e contasse com um sistema administrativo eficiente, mas que em nenhum momento minimizasse a dimensão técnico-pedagógica, intelectual.

Graduado em Pedagogia pela USP em 1955, Nagle foi docente e diretor da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) do câmpus de Araraquara da Unesp. Foi de lá que partiu sua longa carreira. Tornou-se professor titular e atuou na linha de frente das discussões sobre a escola e a educação, o que o fez receber do governo federal, em 1993, a medalha da Ordem Nacional do Mérito Educativo, condecoração criada para premiar personalidades com serviços excepcionais prestados à educação brasileira.

Nagle foi um líder. Em agosto de 1984 chegou à Reitoria da Unesp. O momento era difícil. A reabertura democrática avançava, mas a universidade ainda vivia sob o comando de interventores nomeados pelo governo estadual. O clima interno era de conflito. O governador Franco Montoro queria mudar a situação e pressionou o Conselho Universitário da Unesp para que o ajudasse a fazer isso. Dos professores titulares que integravam o órgão, nem todos dispunham do respaldo acadêmico indispensável e da vocação administrativa exigida pelo cargo. Nagle se diferenciava e foi indicado pelo governador para, na condição de reitor pro tempore, acalmar a universidade e preparar o conselho para a escolha de um dirigente sintonizado com os novos tempos. Meses depois, por indicação do conselho, o governador o nomeou.

A Reitoria de Nagle fez a Unesp deixar de ser uma reunião de faculdades isoladas. A atuação do reitor magnetizou professores e servidores, redefinindo procedimentos, incentivando a criatividade e a iniciativa acadêmica, aproximando áreas e câmpus. Nagle cercou-se de professores para auxiliá-lo e em sua gestão surgiram o Jornal da Unesp, a Editora Unesp, a Fundação para o Desenvolvimento da Unesp, o câmpus de Bauru, o Instituto de Física Teórica. Foram anos de um dinamismo que revolucionou a universidade.

Em 1988, Nagle foi secretário de Ciência e Tecnologia, cargo que lhe possibilitou participar em posição privilegiada do processo de obtenção da autonomia administrativa e financeira pelas universidades estaduais paulistas, decretada em fevereiro de 1989.

Com seu estilo sereno e reservado, fez-se presente no circuito da educação, da ciência e da tecnologia. Presidiu o Conselho Estadual de Educação, integrou o Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Conselho Federal de Educação. No final da década de 90 ligou-se à Universidade de Mogi das Cruzes, na qual coordenou o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Ensino e presidiu o Comitê de Ética em Pesquisa. Também integrou o Conselho Superior da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Em todos esses ambientes, bateu-se pelo que chamava de “credo pedagógico”, uma aposta no valor permanente da educação. Como observou a professora Carlota Boto, da Faculdade de Educação da USP, Nagle foi acima de tudo “um artífice do espaço público na educação”.

Nagle morreu amargurado com a situação educacional brasileira. Hoje, quando os setores governantes menosprezam a educação pública, intelectuais como ele farão falta. Estamos carentes de lideranças que revigorem o sistema escolar e projetem a educação para o plano estratégico. Faltam-nos políticas educacionais que enfrentem os desafios da era digital em que nos encontramos.

Jorge Nagle fez parte de uma geração marcada pela preocupação em construir instituições sólidas, pelo rigor e pela envergadura ética e moral. Foi com essa bagagem que atuou para que a Unesp se tornasse realidade. Para ele, uma universidade honra seu nome quando funciona como uma “comunidade de destino” e compartilha saberes e experiências, não quando exibe posições em rankings e índices de produtividade.

Percursos institucionais não são feitos só de glórias e vitórias. Também conhecem derrotas e tropeços, momentos de refluxo nos quais se constata certa fadiga de material e uma perda momentânea de foco. Não foram fáceis os anos de arranque da Unesp, assim como não são fáceis os dias atuais para o ensino superior brasileiro. Professores como Jorge Nagle enfrentavam esses momentos com determinação e liderança intelectual, buscando reunir o que cada instituição tinha de melhor, com base em valores democráticos.

Talvez não consigamos mais segui-los nesse particular. Nossa vida institucional se individualizou e se fragmentou demais, dificultando ações coletivas e agregações superiores. Mas podemos muito bem tê-los como referência, buscar neles a inspiração e a energia para prosseguir em condições razoáveis de temperatura e pressão.

* MARCO AURÉLIO NOGUEIRA É PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA E COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS E ANÁLISES INTERNACIONAIS DA UNESP

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