A escola pública dos nossos sonhos

Torcemos pela construção de uma estrada que não desejamos utilizar

Nicolau da Rocha Cavalcanti, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2020 | 03h00

Todos nós ficaríamos muito felizes se viéssemos a saber, numa espécie de revelação miraculosa, que a educação pública brasileira vai progredir muito nos próximos cinco, dez, 50 anos. O ideal da escola pública de qualidade é uma aspiração amplamente compartilhada pelos brasileiros. Sabemos que o desenvolvimento social do País passa pela melhoria do ensino público, no qual 82% das crianças e dos adolescentes brasileiros cursam a educação básica.

No entanto, mesmo sendo um ideal praticamente universal, a educação pública parece avançar instável e lentamente. Surgem, então, as indagações: será que o sonho de uma escola pública de qualidade é utopia? Por que ele parece estar tão no âmbito dos sonhos, e não no campo das metas possíveis, dos projetos viáveis, do mundo real?

Podem-se apontar vários obstáculos para uma escola pública de qualidade. Todos são muito reais: desprestígio da carreira docente, gestão escolar deficiente, desarticulação do poder público, salário baixo dos professores, infraestrutura precária, formação pedagógica insuficiente e tantos outros pontos. Mas qual será o grande entrave para uma boa escola pública?

Ainda que possa não ser a principal causa – é uma disputa difícil –, há um ponto especialmente relevante, que facilita a ocorrência de todos os obstáculos mencionados. A má qualidade da escola pública não faz apenas que se tenha uma avaliação ruim dela. Pensamos, vemos e sentimos a escola pública como algo para os outros, para os menos favorecidos.

A melhoria do ensino público é vista como um elemento social relevantíssimo, mas seria precisamente isto: uma questão de justiça social, para os menos favorecidos. A escola pública de qualidade não é o local que se deseja para o próprio filho. E não se pode fazer dessa constatação um juízo crítico. Diante da habitual percepção sobre a escola pública, é compreensível que os pais queiram para os filhos uma boa escola particular.

Esse enquadramento tem, no entanto, sérias consequências sobre a escola pública. Sonhamos e torcemos pela construção de uma estrada que não desejamos nunca utilizar. Sim, o Estado deve construir e aperfeiçoar essa estrada, mas o que se quer é usar a estrada do lado, mais limpa e mais segura, que permite maiores velocidades e melhores destinos.

Se a escola pública fosse vista de outra forma – para os próprios filhos e netos –, ativar-se-ia na sociedade uma imensa capacidade de trabalho, de interação e de inovação. Se víssemos que o futuro dos nossos filhos depende da qualidade da escola pública, colocaríamos muito mais empenho na sua transformação. E aqui não se fala de uma utopia.

Pais e mães não poupam esforços para oferecer o melhor a seus filhos. No entanto, em razão de a escola pública não fazer parte do horizonte desejável para os filhos, o empenho de muitas famílias é orientado para um caminho alternativo. Por exemplo, quantos pais e mães não dedicam ao trabalho profissional muito mais horas do que desejariam, para poderem pagar uma boa escola particular para os filhos?

Essa dinâmica de participação ocorre em alguma medida com o ensino superior, por exemplo. Enxergamos a universidade pública como uma realidade próxima, que afeta a nossa vida, e isso possibilita um envolvimento muito mais ativo da sociedade. Uma proposta política capaz de ameaçar a qualidade do ensino superior desperta pronta resistência. A universidade pública goza, assim, de uma rede de proteção social muito mais eficiente do que a rede pública de educação básica.

A percepção da escola pública para os outros não apenas limita as possibilidades de sua transformação. Ela produz um distanciamento afetivo, existencial. Mesmo que haja uma escola pública na rua onde moramos, quase sempre ela está muito distante da nossa vida.

Tal distância faz que a percepção habitual da escola pública esteja pouco fundada em dados objetivos e seja influenciada por lugares-comuns e preconceitos, reforçando o círculo vicioso. Não é exagero. A escola pública mereceria uma nota mais alta do que a dada por nossa avaliação à distância. Não se veem os avanços alcançados.

Sim, há avanços, alguns muito relevantes. Há experiências de sucesso em vários Estados e municípios. Há muita gente competente e idealista dedicando-se a fazer uma escola pública de excelência. E esses esforços não são ineficazes. Ignorar os progressos é um jeito certeiro de aprisionar a escola pública num patamar inferior, num branding absolutamente perverso.

As escolas privadas são um grande bem social, expressão do pluralismo e da liberdade de educação. Mas falsa é a liberdade das famílias quando o que todas almejam é fugir da escola pública e apenas 18% delas conseguem.

É necessário romper o círculo vicioso, também com uma mudança de percepção sobre a escola pública. Se continuar sendo vista como uma opção educativa para os outros, para os menos favorecidos, a escola pública continuará sendo exatamente isso. Ao contrário do que às vezes se pensa, nossos sonhos são imensamente poderosos.

ADVOGADO E JORNALISTA

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