A esperança não morreu

Temos o privilégio de seguir avante e motivos para erguer os braços para o céu em prece

Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2020 | 03h00

O ano que vai chegando ao fim foi particularmente difícil para todos. Fomos surpreendidos, ainda nos primeiros meses, pela pandemia de covid-19, que atingiu o Brasil inteiro. De uma hora para outra, nossos planejamentos e programações precisaram ser abandonados ou adequados à medida que os problemas avançaram.

Lamentamos os sofrimentos dos que foram atingidos pelas doenças, sobretudo pela pandemia de covid-19, e nos solidarizamos com eles. Fizemos luto por tantos que perderam a batalha para o vírus e nos sensibilizamos com seus familiares e pessoas próximas. Não desconhecemos as lutas e angústias dos pobres, duramente atingidos e deixados na insegurança econômica. De muitas formas, eles foram e ainda estão sendo socorridos.

Lamentamos os desencontros ideológicos no debate sobre a pandemia e as maneiras de enfrentar a enorme crise sanitária. Infelizmente, a dor e a angústia das pessoas foram objeto de exploração emotiva e de enfrentamentos ideológicos estéreis, até com ondas de agressividade.

Mas é preciso reconhecer que nem tudo foi ruim neste ano, que nos deixa muitas lições importantes. No distanciamento e até isolamento social, necessários para evitar a disseminação do vírus, buscamos novas formas de comunicação, de encontro e interação de pessoas, grupos e organizações. As possibilidades de comunicação virtual mostraram-se especialmente úteis e acabamos descobrindo que o virtual não precisa ser necessariamente frio ou irreal.

A insegurança econômica das pessoas, decorrente da perda do trabalho, ensinou-nos a olhar mais para o próximo, atentos aos seus sofrimentos e angústias. Muitas iniciativas solidárias foram promovidas e até a política econômica do governo teve de se curvar e ajustar para socorrer as necessidades básicas da população, aceitando que o melhor investimento é aquele que se volta para o cuidado das pessoas.

A pandemia obrigou-nos a ficar em casa, o que não estávamos mais acostumados a fazer. As famílias tiveram mais tempo para si e para conviver e muitos pais puderam estar ao lado dos filhos por tempo mais prolongado e redescobriram aspectos do convívio familiar relegados a um segundo plano pelo ritmo frenético da vida. E os doentes, mesmo não podendo ser visitados nos hospitais, como antes, tiveram novas formas de atenção e proximidade com deles.

Este tempo estranho nos ajudou a valorizar mais as pessoas, de uma maneira que antes talvez não as tivéssemos percebido. De repente, fez falta o velório com abraços, histórias familiares e rezas. Não foi fácil despedir-se dos falecidos sem se aproximar deles. Percebemos melhor nossa fragilidade e a fugacidade da vida e compreendemos a preciosidade da vida, de cada instante. Aprendemos a valorizar mais a saúde e os hábitos simples e cotidianos para cuidar dela. Os profissionais da saúde nunca foram tão valorizados e que admirados!

A procura de soluções para a superação da pandemia levou o mundo a uma corrida sem precedentes na pesquisa científica, para encontrar vacinas eficazes de combater o vírus insidioso. Graças a esse esforço, vamos fechando o ano mais próximos de soluções para essa crise sanitária. Grandes crises e desafios são, geralmente, oportunidades fecundas para a ciência e o desenvolvimento tecnológico.

Este tempo de pandemia levou muitos a se questionarem sobre o sentido da vida e sobre os rumos dados a ela no ritmo distraído do dia a dia. Em muitos cresceu o desejo de orientar a vida mais para a prática do bem e a busca de Deus. A consciência de nossa finitude ajuda a abandonar alienações ilusórias e arroubos de soberba e pretensão de onipotência e a buscar com mais humildade a verdade a respeito de nós mesmos e do mundo.

Creio que, apesar das marcas individualistas da cultura contemporânea, nos apercebemos melhor da nossa interdependência e do destino comum que nos envolve. Crescemos em solidariedade e fraternidade ao longo deste ano e estamos menos sós e mais abertos ao próximo, como indivíduos e como sociedades e povos. Caímos na conta de quanto ainda precisamos avançar na superação de preconceitos, injustiças estruturais e violências primitivas. E o papa Francisco, com a sua carta encíclica Fratelli Tutti, indicou o caminho da fraternidade e da amizade social como solução para os muitos problemas que parecem insolúveis no convívio da grande família humana.

Se o ano não foi bom, certamente, ele nos deixou ensinamentos importantes e úteis para seguirmos avante, passo a passo, com esperança. Agora é não deixar cair no esquecimento as lições de vida que um ano de sofrimentos e angústias nos deixa. Se não fosse por outros motivos, já seria válido valorizar tanta dor e tanto sofrimento superados e honrar as vítimas que ficaram pelo caminho. Temos o privilégio de seguir avante e temos motivos para erguer os braços para o céu em prece. Deus não está longe de nós!

O Natal se aproxima: é um convite para celebrar a fraternidade universal, mesmo sem podermos reunir multidões para festejar.


CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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