A ética dos nossos filhos depois da pandemia

Que esta ameaça global nos encoraje a buscar interesses comuns, e não apenas os nossos

Cicero Urban, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2020 | 03h00

Vivemos hoje um novo problema, desconhecido de gerações passadas. Mas também um momento em que velhos problemas não resolvidos tomam novas formas. A morte da ética, celebrada na pós-modernidade, e substituída pela estética, agora entra em uma crise profunda. Algumas atitudes valorizadas no passado, como o autossacrifício e a luta de toda uma vida em busca de um ideal, foram substituídas pela busca individual do sucesso e pelo conforto imediatos. Tudo, ou quase tudo, passou a ser aceito e tolerado para atingi-los. Os fins, mais do que em outros períodos, justificam os meios.

Contudo essa tolerância associada com o individualismo desenfreado criou a marca mais forte de nossa geração: a indiferença. Veio, então, algo inesperado e que está mudando o rumo da História: um novo vírus. A forma mais simples de vida rasgando todas as nossas pretensões, narrativas e ideologias. Resta saber se este tempo passará como o crepúsculo ou como o renascimento da ética. E como isso influenciará nossos filhos na construção de um novo mundo pós-pandemia.

A palavra ética deriva do grego e significa costume, maneira habitual de agir, caráter. Busca, em seus princípios, a universalidade e a fundamentação da coisa certa a fazer. Para o sacerdote jesuíta Joseph De Finance, ela é uma ciência categoricamente normativa dos atos humanos, segundo a luz natural da razão. São as ações que escolhemos, em detrimento de outras, que são medidas e avaliadas e nos levam à tomada correta de decisão. No entanto, que valores devem ter prioridade agora? O que é indispensável em nossa vida?

O útil, não necessariamente é o bom. O belo, não necessariamente é o verdadeiro. O economicamente sensato, pode não ser o mais apropriado. Que critérios utilizar depois desta pandemia? O que fica depois de tudo isto? 

Num mundo de joelhos, onde a ciência e a tecnologia pareciam resolver todos os problemas, vivemos contradições políticas, filosóficas e religiosas. O que parecia dividido agora ficou fragmentado. E a maior de todas as vulnerabilidades humanas veio à tona: a fragilidade da vida.

Pois bem, o que dizer aos nossos filhos depois deste “retorno à casa”? Ricos e pobres, não importa. Estamos todos perplexos e perdidos. O que diria hoje Zygmunt Bauman, sociólogo polonês que tão sabiamente descreveu nosso tempo como o de uma “modernidade líquida”?

Nossas relações pessoais, nossos valores, nossos amores, nossas amizades, tudo é frágil e maleável. As pessoas deixaram de ser valorizadas pelo que são. Somos o que consumimos. As instituições e os Estados, que são, obviamente, feitos de pessoas, também ficaram enfraquecidos e fragilizados. Se na “modernidade líquida” todas as relações humanas foram abaladas, e isso parecia irreversível, agora estamos retornando ao passado?

Sim, a quarentena está nos obrigando a rever tudo. A importância de nos relacionarmos fisicamente e emocionalmente. De estabelecermos laços mais fortes. A falta que isso nos faz está mais clara agora. A amizade e o amor líquido das redes sociais não são suficientes para uma vida satisfatória e plena como pessoas. O sólido entrou em contraposição ao líquido.

Qual a ética a ser ensinada aos nossos filhos?

A primeira lição é que ela não é para o outro, mas com o outro, juntos! A segunda é que, como pessoas, somos insubstituíveis, mas como profissionais com diferentes papéis na sociedade, não. O limite desta ambivalência moral estará entre os principais dilemas pós-pandemia. Por isso a ética precisa ser “com o outro”.

Para Hans Jonas, nunca tivemos tanto poder, com tão pouca orientação para seu uso. Precisamos de mais sabedoria quando menos cremos nela. Homens crescem e são modelados. A liberdade é o direito de modelar-se a si mesmo. Educar nossos filhos neste novo mundo é modelá-los não mais para a busca do conforto falso do vazio e do imediato, mas para o retorno ao ponto de partida.

Não somos morais graças à vida em sociedade, mas somos sociedade graças a sermos morais. O nosso valor mais importante, e que precisa ser preservado, é o respeito ao próximo. Algo que ficou de lado por muito tempo.

Finalmente, a vida humana é maior e mais forte do que o vírus. Isolada, todavia, ela facilmente sucumbe a ele. E a fragilidade da nossa existência física só se fortalecerá na ação conjunta da vida em sociedade. Da somatória de todas as nossas qualidades individuais é que teremos a vitória contra este vírus e contra o mal maior, não causado pelo vírus, que é a indiferença. 

Nós, como seres humanos, sofremos da deficiência de altruísmo. A nossa falta de sentido hoje reflete o vazio em que nos colocamos ao enfraquecermos e relativizarmos nossas relações humanas. Esperamos que a coerção desta ameaça global nos encoraje a buscarmos interesses comuns, e não apenas os nossos. Será o fim da “modernidade líquida”? Tudo dependerá da ética que guiará os nossos filhos.

MÉDICO MASTOLOGISTA, PROFESSOR DE BIOÉTICA, É VICE-PRESIDENTE DO INSTITUTO CIÊNCIA E FÉ EM CURITIBA

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