A exploração política do Holocausto

Ao imitar Lula, Weintraub ofende a memória de quem padeceu sob o nazismo

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2020 | 03h00

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, comparou a operação da Polícia Federal contra militantes bolsonaristas investigados em inquérito sobre fake news, na quarta-feira, dia 27, com a Noite dos Cristais – pogrom nazista contra os judeus na Alemanha em 1938, prenúncio do horror do Holocausto. Escreveu o ministro em suas redes sociais: “Hoje foi o dia da infâmia, vergonha nacional, e será lembrado como a Noite dos Cristais brasileira. Profanaram nossos lares e estão nos sufocando. Sabem o que a grande imprensa oligarca/socialista dirá? SIEG HEIL!”.

Na Noite dos Cristais (Kristallnacht, em alemão), entre os dias 9 e 10 de outubro de 1938, os camisas pardas nazistas lideraram uma alucinante razia contra sinagogas, lojas e residências de judeus. O nome faz referência às janelas e vitrines quebradas. Quase cem judeus foram assassinados e outros 30 mil foram mandados para campos de concentração naquela noite de selvageria. O pretexto do massacre foi o assassinato de um diplomata alemão em Paris, cometido por um judeu cuja família havia sido expulsa da Alemanha.

É evidente, portanto, que a analogia oferecida pelo ministro da Educação não tem cabimento, em nenhum sentido. Para começar, os policiais federais que agiram contra militantes bolsonaristas o fizeram respaldados em mandados judiciais, dentro do mais absoluto respeito à lei. Já os nazistas atuaram à sua maneira: como bárbaros estimulados pelo discurso de ódio contra os judeus, sem amparo em nenhuma lei, a não ser a da selva. Em segundo lugar, os policiais federais, diferentemente da turba hitlerista, não quebraram nada, não incendiaram templos, não prenderam ninguém de maneira arbitrária e, principalmente, não mataram ninguém. Por fim, mas não menos importante, os nazistas invocados pelo ministro Weintraub atacaram, com especial ferocidade, milhares de concidadãos inocentes, cujo único “crime” era serem judeus, enquanto a polícia federal agiu contra suspeitos de crimes reais.

São tantas as falhas no raciocínio do ministro Weintraub que, numa hipótese benevolente, é possível especular que ele talvez estivesse só de brincadeira – versão muito comum num governo em que altas autoridades proferem toda sorte de barbaridades num dia e, diante da natural repercussão negativa, dizem que foram “mal interpretados”. No caso do ministro Weintraub, contudo, aparentemente essa hipótese deve ser descartada, porque nos dias seguintes àquele tuíte ele não só confirmou a absurda analogia, como reiterou sua indignação.

Assim o ministro Weintraub se apropria da memória do Holocausto para fins políticos. Não é o primeiro a fazê-lo nem será o último, é claro. O massacre industrial de 6 milhões de judeus na 2.ª Guerra Mundial é evento de tal forma transcendental na História contemporânea, simbolizando o zênite do Mal, que o termo que popularmente o designa – Holocausto – passou a ser usado para qualificar qualquer situação de padecimento. Tornou-se, assim, poderosa arma retórica, para usos diversos, dos mais nobres aos mais cínicos.

Um exemplo curioso desse uso é uma campanha publicitária do grupo de defesa dos animais Peta (People for the Ethical Treatment of Animals) de 2004, intitulada Holocausto no seu prato. Os cartazes da campanha exibiam fotos de judeus prisioneiros de campos de concentração ao lado de imagens de animais em condições degradantes. E um desses cartazes, ao citar o número de mortos no Holocausto, denunciava que “o mesmo número de animais é morto a cada quatro horas para se tornar alimento apenas nos Estados Unidos”.

Duramente criticada, a Peta defendeu-se dizendo que a campanha havia sido criada por um de seus colaboradores judeus e paga por doadores judeus, um modo nada sutil de tentar legitimar a ofensa.

Não por acaso, o ministro Weintraub fez exatamente a mesma coisa. Criticado por fazer comparações esdrúxulas entre os militantes bolsonaristas e os judeus perseguidos pelos nazistas, ele invocou sua ancestralidade judaica e seu parentesco com sobreviventes de campos de concentração como uma espécie de salvo-conduto para subverter a memória do Holocausto em favor de seus correligionários encrencados com a Justiça, tentando conferir-lhes o status de vítimas indefesas de carrascos que os perseguem apenas por serem bolsonaristas. Nem original o ministro Weintraub foi: em 2015 o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva queixou-se de que estava “cansado do tipo de perseguição e criminalização que tentam fazer à esquerda deste país”, o que, para ele, “parece os nazistas criminalizando o povo judeu”.

Ao imitar o ex-presidente Lula, portanto, o ministro Weintraub ofende não apenas a inteligência alheia, mas principalmente a memória dos que padeceram sob o nazismo – inclusive a memória de seus avós sobreviventes de campos de concentração, que certamente sabiam muito bem que a Noite dos Cristais nada tem em comum com uma batida policial contra suspeitos de espalhar fake news.

Em resumo, é como se o Holocausto simplesmente não tivesse terminado – o massacre continua, agora na forma de uma monstruosa banalização.

JORNALISTA, HISTORIADOR, É AUTOR DO LIVRO ‘HOLOCAUSTO E MEMÓRIA’ (ED. CONTEXTO, 2020)

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