A finitude na política

A vida é finita, mas no Brasil normalizou-se a perpetuidade de lideranças, como se fossem existir para sempre.

Nicolau da Rocha Cavalcanti, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2022 | 03h00

Depois do carnaval vem a Quarta-Feira de Cinzas. Este nome remete ao rito das cinzas, do início da Quaresma. “Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás” (Gênesis 3, 19), diz-se hoje nas igrejas católicas. Essa antiga advertência sobre a finitude da vida pode ser muito útil, também, para a política, na qual muitas práticas parecem ignorar as limitações do chronos. A compreensão irrealista – ou negacionista, poderíamos dizer – do tempo e de seus efeitos é obstáculo para a efetividade das políticas públicas e para o adequado funcionamento das instituições.

A vida é finita, mandatos políticos são finitos. A constatação de que o tempo é breve conduz à conclusão de que os grandes desafios do País não são resolvidos em quatro ou mesmo oito anos. Para que produzam seus melhores resultados, políticas públicas devem ser transversais aos mandatos, como mostram experiências na área da educação pública. Ceará, Espírito Santo e Pernambuco – que adotaram, com continuidade ao longo do tempo, políticas educacionais sérias, baseadas em evidências – vêm colhendo resultados muito positivos. Isso revela, também, a inaptidão de forças-tarefa, por definição limitadas no tempo, para enfrentar problemas estruturais.

A vida é finita, mas na política brasileira há uma normalização da perpetuidade de lideranças políticas, como se fossem existir para sempre. Fenômeno impensável na maioria das democracias maduras, aqui nos acostumamos à ideia de que chefes do Executivo concorram aos mesmos cargos seguidas vezes. Elegem-se, reelegem-se, elegem substitutos e, depois, voltam a se candidatar.

Naturalizamos a perpetuidade e não exigimos a formação de novas lideranças. Dois mandatos no Executivo são tempo suficiente para uma pessoa oferecer sua melhor contribuição ao País, ao Estado ou ao município. No entanto, em vez de dar espaço às novas gerações, há um entronizar pessoas em posição de destaque, sem nem sequer pensar em outros nomes. Uma democracia madura envolve alternância de poder entre partidos e, também, renovação de pessoas, de perspectivas profissionais, de histórias de vida.

A brevidade do tempo alerta, ainda, para as limitações individuais no enfrentamento dos problemas sociais, ambientais e econômicos. A força da política reside no coletivo, e não na individualidade isolada. Tarefa comunitária, a política deve ser capaz de reunir as diversas experiências e capacidades presentes numa sociedade.

Assim, o caminho é fortalecer as instituições: depender menos do voluntarismo pessoal – que facilmente desemboca em messianismo –, investindo em construções institucionais sólidas, com culturas e procedimentos que transcendam o meramente individual. Nesta seara, entidades intermediárias, como os partidos, são essenciais. Entre outras coisas, organizam e estruturam, ao longo do tempo, valores e ideais, proporcionando o substrato necessário para as mudanças de médio e longo prazos.

Sendo curto o tempo, urge acelerar as transformações sociais. A vida é breve demais para não enfrentar os problemas com seriedade e profissionalismo. É necessário fugir dos lugares-comuns, rever diagnósticos, propor soluções criativas e consistentes. Temos de ser, enquanto sociedade, muito mais eficazes na resolução dos problemas coletivos.

A visão realista do tempo dá urgência à política. A vida da população transcorre sem volta no tempo. Cada ano perdido, cada mandato desperdiçado significa milhões de pessoas vivendo sua única vida em condições precárias e, muitas vezes, desumanas. Não dá para esperar 30 anos, 50 anos. A boa política exige pensar no longo prazo, mas é também cuidar de forma prioritária do hoje e do agora.

A vida é breve, as gerações renovam-se rapidamente. É real, portanto, o risco de perda da memória de um país. É preciso proporcionar aos jovens – e aos não tão jovens – a perspectiva histórica dos acontecimentos do passado e do presente. Entre suas prioridades, uma sociedade responsável cuida conscienciosamente de transmitir às novas gerações as culturas, os valores e os compromissos sobre os quais está assentada.

A dimensão histórica da vida confere, também, um olhar realista sobre o presente. Não somos o ápice civilizacional absoluto. Há muito o que corrigir e aprimorar, inclusive pelo aprendizado com as gerações passadas.

Por fim, duas observações. A finitude da vida não tira a importância do indivíduo, diluindo-o num vago coletivismo. É o contrário. A percepção realista do tempo conduz ao necessário foco da política: as pessoas. “Quem se preocupa com os dias semeia o trigo. Quem se preocupa com os anos planta árvores. Quem se preocupa com as gerações educa pessoas”, ensinou o pedagogo Janusz Korczak. A boa política não deixa ninguém para trás, buscando as condições para que todos possam desenvolver sua autonomia e aproveitar livre e responsavelmente o tesouro do próprio tempo.

Além disso, a reflexão sobre a brevidade da vida não induz à desesperança. É, antes, um convite a redescobrir a relevância e as incríveis oportunidades do tempo presente. Há muito a fazer.

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ADVOGADO E JORNALISTA

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