A força do Ocidente

Para certos ideólogos conservadores, a Europa ocidental – e a oriental dela dependente ou associada – seria incapaz de responder a uma invasão russa.

Denis Lerrer Rosenfield, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2022 | 03h00

Tornou-se um ponto comum de certo pensamento conservador considerar o Ocidente como decadente. Estaríamos no fim de um tipo de civilização, que se esgotaria no niilismo, na autossatisfação e no egoísmo, resultantes do abandono dos valores tradicionais e religiosos. Tal pensamento terminou se desenvolvendo de uma forma política e ideologicamente marcante na Rússia, baseando-se em sua própria história e tradição e, em particular, na Igreja Ortodoxa. Para esses ideólogos, estaria aí o alvorecer de uma nova civilização, superior à ocidental, devendo, porém, ainda enfrentar o poderio econômico e militar americano, aliando-se a outros Estados, como o chinês e o islâmico, culturalmente diferenciados e alternativos.

Mais especificamente, a Europa ocidental – e a oriental dela dependente ou associada – seria incapaz de responder a uma invasão russa, por estar imersa no hedonismo, no individualismo, na liberdade de escolha e no questionamento dos valores. Estados democráticos fundados e organizados em torno da ideia de bem-estar social tornam-se inaptos para a guerra, não abraçam o patriotismo, cedendo para conservarem o seu status quo. O indivíduo impera sobre tudo, com o consequente abandono das formas de vida comunitária, não sabendo resistir a pressões externas. Sempre procurarão a acomodação e a negociação diplomática, contanto que o seu bem-estar não seja prejudicado.

Os russos, ao contrário, conforme ao pensamento eurasiano, seriam um povo culturalmente diferenciado, baseado no desprezo da democracia e do individualismo, porque, para eles, o primado dos valores comunitários e religiosos seria outro, hierárquico, obediente ao Estado e ancorado numa elite que prima por ser a representação última desses valores. Em sua história intelectual, chegaram inclusive a considerar Moscou como o lugar de uma “nova Roma”, uma “nova Jerusalém”, em sua luta contra o anti-Cristo. A vida como princípio seria diferente da ocidental, na medida em que reconhecem, também, o valor da morte para a Pátria em guerra, com o consequente elogio das virtudes guerreiras. Enquanto os ocidentais evitam a todo custo mortes no campo de batalha, os russos a enfrentariam com galhardia.

Qual não deve ter sido a surpresa de Vladimir Putin, do seu serviço secreto e dos seus militares quando o Ocidente não se acovardou na invasão da Ucrânia e reagiu prontamente, tanto enviando armamentos sofisticados quanto impondo pesadas sanções econômicas? Sanções que são, assinale-se, pesadas não apenas para a Rússia, mas também para os países ocidentais, europeus principalmente, com cortes em suas fontes tradicionais de abastecimento, como o gás, o petróleo, o carvão e produtos alimentares como o trigo. Ou seja, na defesa dos seus valores, os ocidentais tomaram decisões que afetam seu próprio nível de vida, sendo eles igualmente obrigados a se transformarem. Ressalte-se que assumiram seus próprios princípios, assegurando-os. Até empresas privadas, em movimento inédito, optaram por fechar suas filiais russas, seguindo pressões da própria opinião pública ocidental.

Militarmente, talvez os ocidentais poderiam ter se arriscado mais na defesa da Ucrânia, enviando aviões, por exemplo, e navios de guerra, ou mesmo intervindo com tropas. Contudo, forçoso é reconhecer que tais medidas poderiam precipitar uma terceira guerra mundial, com utilização de armamentos nucleares, com consequências planetárias imprevisíveis. A opção escolhida foi circunscrever o conflito ao território ucraniano, não sem antes o envio de mensagens explícitas de que outros países, membros da Otan, seriam defendidos militarmente. Uma fronteira foi claramente circunscrita. E isso, frise-se, com amplo apoio da opinião pública destes países, que disseram um rotundo não à ditadura, à autocracia e ao emprego arbitrário e injustificado da violência.

Para Putin e seu grupo, outra quebra de expectativa residiu na reação dos ucranianos. Sendo eslavos e predominantemente ortodoxos, era de esperar que receberiam de braços abertos os irmãos “culturais” russos. Foram recebidos a bala, demonstrando em suas ações uma força que abalou o Exército russo, que terminou mostrando falta de preparo, manobras militares inconsistentes e falta de coesão moral. Pelo que lutam os soldados russos? Nem eles sabem. Pelo que lutam os soldados e a população ucraniana? Pelo seu país e por suas liberdades. Os russos também acharam que a Ucrânia carecia de um líder importante, apostando em que um ex-comediante jamais poderia tornar-se um ator dramático, inclusive, trágico, de primeira grandeza.

Para Putin e seu grupo, era insuportável que a Ucrânia estivesse se ocidentalizando, optando por outros valores, por seu modo de vida, usufruindo de liberdades e querendo ingressar na União Europeia e na Otan. Que um povo eslavo, de história comum à dos russos, queira isso veio a ser algo intolerável. Foram seus próprios valores e princípios que foram postos em questão.

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PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFGRS. E-MAIL: DENISROSENFIELD@TERRA.COM.BR

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