A gramática da ciência sob a covid-19

Contra a pandemia, se não dá para ser o ‘golden standard’, valemo-nos do que mais se aproxima

Claudio de Moura Castro, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2021 | 22h29

Pondo o velho chapéu de professor de métodos de pesquisa e autor de livro sobre o assunto, comento o caso da “cloroquina + ivermectina”. Correm duas contendas paralelas, a política e a científica. Mas elas se juntam, num casamento pouco auspicioso para a saúde.

De um lado temos uma disputa política acirrada e ideológica, no caso, governo contra oposição. Cada um usa os argumentos que supõe mais mortíferos – não os mais verdadeiros. E as redes sociais tornam a verdade ainda mais fugidia. Lastimável.

A imprensa mostra o seu viés. O primeiro defensor da hidroxicloroquina, o dr. Didier Raoult, publicou uma carta admitindo que ela não reduz a incidência da covid-19. Todavia afirma também que reduz a gravidade e encurta a duração da doença. Manchete na imprensa para a primeira notícia e a segunda sai meio escondida. Ora, o remdesivir foi trombeteado amplamente, por reduzir em 30% a duração da doença, ainda que faça isso a um custo faraônico.

Para contrastar, vejamos o bom exemplo do Centers for Disease Control. Recentemente, afirmou que as pesquisas revisadas não permitiam recomendar a ivermectina. Não nega que o fármaco possa funcionar ou tampouco afirma que não funciona, apenas diz que a pesquisa é insuficiente para a sua recomendação oficial.

Dito isto, passo ao meu tema, a gramática da ciência.

A partir de 1962, na esteira da catástrofe da talidomida (que causou deformidades em bebês), os novos fármacos passaram a ser submetidos a uma bateria de testes. Neles foi incorporada a versão mais pura e radical do método científico, daí ser chamado golden standard. Antes disso, os remédios vendidos nas farmácias não eram testados com nenhum rigor metodológico. Foi um divisor de águas, mas caríssimo de ser aplicado – US$ 19 milhões para aprovar uma vacina. Além disso, leva tempo para produzir respostas.

Sendo assim, a medicina é obrigada a conviver com pesquisas de diferentes níveis de confiabilidade. Um, lá no olimpo do golden standard, é exigido para a liberação de novos fármacos e para grande parte das pesquisas publicadas nos periódicos de primeira linha. Mas é tão cara e lenta sua aplicação que a medicina opera, em paralelo, com avaliações mais imperfeitas. Naturalmente, com menor confiabilidade. Rastreando o murundu de publicações, há as fatalmente comprometidas, em contraste com outras quase perfeitas. É preciso passar pente fino.

Para os crentes ortodoxos no golden standard, é o horror! Mas no mundo real decisões precisam ser tomadas no dia a dia dos médicos antes de aparecerem as pesquisas do olimpo.

Não podemos desqualificar esses esforços imperfeitos, mesmo sabendo que não têm a mesma confiabilidade. E espremendo, do somatório das pesquisas minimamente aceitáveis pode sugerir alguma convergência. Isso se chama meta-pesquisa. É um passo à frente.

Vejamos um exemplo dessa evidência imperfeita. Diante da comunicação da OMS, a Suíça parou de aplicar a hidroxicloroquina. Duas semanas depois, o índice de casos multiplicou-se por cinco. Assustados, os médicos suíços voltaram a usá-la. Mais duas semanas, a incidência de novos casos caiu para um quinto. Metodologicamente é uma evidência frágil. Grupo de controle? Randomização da amostra? Critérios de testagem? Tudo falho, mas é uma peça sugestiva. No mundo real, médicos e pesquisadores convivem cotidianamente com situações desse naipe, persuasivas, porém metodologicamente imperfeitas. Nem pensar em descartá-las, dizendo com soberba que não há “evidência científica”.

No caso dos dois fármacos, essa pesquisa vira-latas tem sido ignorada com arrogância pelos puristas do golden standard. E ainda não chegaram as pesquisas desse padrão. Mas não haverá respostas na coleção de pesquisas que se acumulam, apesar de suas falhas aqui ou acolá? Quando chegar o golden standard, fica tudo resolvido. Mas no ínterim, essa pesquisa bastarda oferece resultados preciosos. É a ciência do possível. É com essa montoeira de estudos imperfeitos que temos de conviver. É deles que brotam as orientações usadas pelos médicos.

Como sou apenas um curioso desses assuntos, se tiver covid-19, fico até em dúvida se devo ou não tomar tais remédios. Portanto, não sou partícipe de nenhuma cruzada, contra ou a favor. Tomei os dois remédios para explicar o método científico.

Os testes requeridos para autorizar as novas vacinas deram ao golden standard uma visibilidade inaudita. Para alguns, é ele ou nada. Não resolve, pois muitas decisões médicas não podem esperar pesquisas nesse padrão. Havendo trabalhado 50 anos como pesquisador (em educação) e assinado centenas de artigos e livros, jamais consegui apresentar alguma pesquisa que se aproximasse do golden standard da FDA. Que fique claro, a boa ciência é a que aplica todo o rigor metodológico possível. Sua fronteira é ditada pelas circunstâncias, não por definições rígidas. Se não dá para ser o golden standard, valemo-nos do que mais se aproxima.


M.A., PH.D., É PESQUISADOR EM EDUCAÇÃO

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