A guerra à cultura, o culto a Trump e a pauta fiscal

Enquanto Bolsonaro se curvava a seu guru, Guedes cuidava de uma agenda de racionalização

Rolf Kuntz*, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2019 | 03h00

Só falta sacar a arma e repetir a frase famosa da peça escrita em 1933 pelo alemão Hanns Johst: “Quando ouço a palavra cultura, solto a trava de minha Browning”. Quanto à arma, tudo bem. É parte central do programa de governo do presidente Jair Bolsonaro. Quanto à peça, nem tanto. Sob a direção de Johst, a Academia Alemã de Poesia foi um firme centro de apoio ao nazismo. E o nazismo, como explicaram Bolsonaro e o chanceler Ernesto Araújo em Israel, na porta do Museu do Holocausto, foi um movimento de esquerda. Esquerda, nem pensar. E quem precisa da memória de Hitler quando pode cultuar a figura de um Brilhante Ustra? Enfim, nem foi preciso, ainda, recorrer a uma Browning, ou a uma brasileiríssima Taurus, para enfrentar o problema. Primeiro a cultura foi jogada no Ministério da Cidadania, um notável saco de gatos administrativo. Depois, já esbofeteada e humilhada, foi transferida para o Ministério do Turismo, chefiado por Marcelo Álvaro Antonio, acusado pelo Ministério Público de Minas Gerais de envolvimento num esquema de candidaturas laranjas do PSL. Para comandar o setor recém-agregado ao Turismo o presidente escolheu o dramaturgo Roberto Alvim, famoso por haver atacado publicamente a atriz Fernanda Montenegro. O jovem personagem da peça de Johst aplaudiria. Goebbels e Göring, muitas vezes citados como autores da frase, também poderiam aprovar, embora filiados a um partido de esquerda, como ensinaram mais de uma vez Bolsonaro e Araújo.

Quanto à pureza ideológica do presidente brasileiro, tem sido provada de forma inquestionável, mesmo quando parecem faltar apoio e reconhecimento de seu guia espiritual, agora submetido a um processo de impeachment nos Estados Unidos. Talvez a intenção do guru Donald Trump seja testar a fidelidade e a firmeza do seguidor. Divindades e portadores da revelação podem fazer isso de vez em quando.

Bolsonaro tem reafirmado como um crente fervoroso sua submissão ao líder americano. Os dois lados têm proclamado a intenção de ampliar o comércio bilateral. Apesar disso, o governo americano decidiu manter a barreira à importação de carne do Brasil. Bolsonaro aceitou, como um verdadeiro crente. Depois, o presidente brasileiro condenou a eleição de Alberto Fernández na Argentina e anunciou a intenção de faltar à cerimônia de posse. Destoando de seu seguidor, Trump cumprimentou o candidato recém-eleito e acrescentou: “Você fará um trabalho fantástico”. Terá sido mais um teste?

Com uma firmeza nem sempre vista nos crentes mais virtuosos, Bolsonaro perseverou. Se foi uma prova concebida pelo mestre, o discípulo mereceu a nota mais alta. Sua próxima façanha no culto aos verdadeiros valores ocidentais, guardados no sacrário da Casa Branca, foi celebrar no Twitter o abandono da Argentina por três grandes empresas, a MWM, a Honda e a L’Oréal.

As três, segundo havia circulado, deixariam o país vizinho para se instalar no Brasil. Mas a informação era falsa, foi negada pelas empresas e Bolsonaro, depois de apagar a mensagem, acabou pedindo desculpas. Faltou desculpar-se, no entanto, pela linguagem. “A nova confiabilidade do investidor”, havia escrito o presidente, “vem para gerar mais empregos e mais giro econômico em nosso país.” A palavra adequada seria “confiança”. Confiabilidade, nesse caso, seria atributo do País. Mas seria nova, mesmo, essa confiabilidade?

Em todos esses episódios Bolsonaro tem agido em nome de suas crenças pessoais e das marcas ideológicas e religiosas de seu governo. Presidentes com outro tipo de formação agiriam normalmente como representantes do Estado. Do ponto de vista do interesse estatal, o relacionamento Brasil-Argentina sobrepõe-se às diferenças políticas entre o bolsonarismo e o kirchnerismo, hoje representado pela dupla Alberto Fernández-Cristina Kirchner. Estados podem meter-se em disputas de vários tipos e até em guerras. Não se metem, no entanto, em baixarias.

A desatenção de Bolsonaro a esses detalhes deve ser perdoável, no entanto, em vista de sua fidelidade aos valores ocidentais e cristãos sustentados em várias ocasiões pela Casa Branca e representados com perfeição pelo trumpismo. Essa fidelidade foi ainda comprovada, nos últimos dias, pelo apoio na Organização das Nações Unidas (ONU) à manutenção do embargo econômico imposto a Cuba pelos Estados Unidos.

Pela primeira vez, em 28 votações, a diplomacia brasileira votou dessa forma. Foram 187 votos contrários ao bloqueio e 3 a favor: Estados Unidos, Israel e Brasil. Pela tradição diplomática do Brasil, atos de repressão internacional só seriam apoiados com base em decisões oficiais da ONU.

Na mesma semana houve uma instrutiva coincidência. Trump formalizou a intenção de abandonar o Acordo de Paris sobre o clima. Bolsonaro autorizou plantio de cana-de-açúcar em áreas do Pantanal e da Amazônia onde essa atividade havia sido vedada em 2009. Essa proibição era compensada pela definição de territórios para expansão da cultura.

Não ficou claro por que a economia brasileira precisaria da liberação das áreas antes proibidas. Defensores da preservação logo apontaram o risco muito provável de desmatamento. Outro risco é evidente: com essa decisão, o governo de Brasília deu mais um argumento para os protecionistas combaterem a importação de produtos agrícolas brasileiros.

Com atos desse tipo, Bolsonaro competiu por espaço nos jornais com o ministro da Economia, Paulo Guedes, seu posto Ipiranga. Num feito raríssimo para o atual governo, o ministro e sua equipe haviam conseguido amplos elogios pelas três propostas de emenda constitucional entregues na terça-feira ao Congresso. As propostas abrem uma discussão realista sobre a gestão financeira do setor público e sobre as condições fiscais de um verdadeiro federalismo. Bolsonaro até participou da entrega das propostas ao Legislativo. Mas suas prioridades, obviamente, continuaram muito longe dessa pauta de governo.

*JORNALISTA

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