A guerra fria voltou tórrida

Ao invadir a Ucrânia, Vladimir Putin atuou como o velho agente da KGB soviética daqueles tempos e se antecedeu aos fatos.

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2022 | 03h00

Qualquer que venha a ser o fim do conflito gerado pela invasão russa à Ucrânia, tudo é ainda mais grave e absurdo do que os anos da guerra fria, quando duas superpotências disputavam a hegemonia político-militar do mundo.

Naquela época havia um pretexto – pelo menos isso –, ao contrário de agora, quando só existem insensatez e loucura. Vladimir Putin deixou clara essa situação quando ameaçou usar o arsenal nuclear russo para dobrar a Ucrânia. Mas, afinal, o que ele pretende?

Seria uma guerra de conquista para ampliar territórios, tal qual Hitler?

Quando, anos atrás, a mesma Rússia de Putin ocupou a Crimeia, houve protestos na ONU, mas (de fato) o mundo calou-se, sem notar que era uma usurpação, mesmo que a maioria da população descenda de russos e fale russo. Isso abriu a porta para preparar a invasão de agora, em pleno inverno, quando o rigor do frio europeu dá aos russos a vantagem de serem os grandes fornecedores do gás que aquece domicílios na Europa Ocidental, em especial na Alemanha. Durante anos, a Rússia acumulou mais de US$ 600 bilhões em reservas financeiras, em condições de resistir, durante bom tempo, às restrições do sistema bancário internacional adotadas agora.

A Rússia preparou-se para a guerra, até mesmo como um gesto de autodefesa. Passo a passo, a quase totalidade dos países que compunham o “mundo comunista” liderado pela antiga União Soviética passou a integrar a Otan, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, que é um bloco militar encabeçado pelos Estados Unidos, não um organismo econômico ou mercado comum.

Assim, Polônia, Hungria, República Checa, Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia, Albânia, Croácia, Montenegro e Macedônia foram levados a reequipar suas forças militares para adequá-las à Otan, contraindo vultosos empréstimos em bancos internacionais. Alguns destes 14 países eram fronteiriços à Rússia e passaram a ser vistos como base de um eventual conglomerado militar em condições de afetar a segurança dos russos.

Nenhum deles tinha em seu território, porém, enclaves com populações de origem russa e que falam russo, como ocorre na Ucrânia atual. Para Moscou, isso era mais importante do que o eventual perigo representado por uma base de mísseis da Otan na Polônia, a tão só 160 quilômetros da fronteira.

Ao invadir a Ucrânia, Putin atuou como o velho agente da KGB soviética dos tempos da guerra fria e se antecedeu aos fatos. Vislumbrou (ou fantasiou) que o presidente Zelenski iria integrar a Ucrânia à Otan e decidiu invadi-la. É evidente que não esperava a resistência ucraniana e, assim, cometeu um erro que pode ser fatal para si próprio: insinuou ser capaz de acionar o arsenal atômico russo para decidir a guerra.

Aí apareceu a insânia, em condições de levar o mundo a um conflito nuclear generalizado. Deflagrar uma guerra nuclear é loucura maior do que a demência em si. Supera até o perigo de 1962, quando a antiga União Soviética instalou mísseis em Cuba. Nos idos da guerra fria, havia, pelo menos, acordos de desarmamento entre as duas superpotências. Podia ser só “um papel” a ser rasgado e posto no lixo, mas era um compromisso.

Ao insinuar o uso de armas atômicas, Putin uniu o mundo inteiro contra a Rússia. Hoje, os russos estão suspensos até do próximo mundial de futebol no Catar, além de outras competições desportivas.

Talvez a insinuação seja apenas uma típica bravata do antigo agente da KGB, mas foi suficiente para gerar represálias do mundo inteiro, a começar pelo sistema bancário internacional.

Agora, tropas russas ocuparam a antiga usina atômica de Chernobyl, acidentada em 1986 e, desde então, fechada, mas ainda perigosamente radiativa. O movimento gerado naquele terreno pelos tanques russos fez crescer a radioatividade na região, numa ínfima mostra do horror do uso de armas atômicas.

Toda guerra é um ato demente, mas há os que lucram com a insânia. Os fabricantes de armas tornam-se bilionários mesmo matando e destruindo. É lícito pensar que a indústria bélica do Ocidente esteja agradecida a Putin, pois a guerra levou os governos dos países industrializados a enviarem todo tipo de armas à Ucrânia. Tão só a União Europeia criou um “fundo de ajuda” de € 5 bilhões em armamento destinado à Ucrânia.

Dias antes da guerra, a Polônia gastou outros US$ 5 bilhões na compra de tanques e outros artefatos dos Estados Unidos, exigidos pela Otan, mostrando o lado oculto deste comércio.

Enquanto isso, o Brasil se comporta como espectador e o presidente da República anda de motocicleta. Não basta o Brasil ter votado, no Conselho de Segurança da ONU, pela condenação da invasão russa. Isso não muda o gesto de Bolsonaro dizendo-se “solidário” à Rússia, que é o agressor.

A guerra fria voltou tórrida, em alta temperatura e é necessário estancá-la.

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JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UnB

 

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