A impositiva e desafiante agenda da educação

Além de enfrentar as demandas do dia a dia pandêmico, precisamos pensar no futuro já

Paulo Hartung, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2021 | 03h00

O enfrentamento da pandemia do novo coronavírus impôs sacrifícios, em maior ou menor escala, planeta afora, a um âmbito vital de nossa existência: a educação. Em nações com melhores índices de inclusão e letramento digital, o fechamento das escolas e o ensino remoto causaram bem menos danos do que se verificam em nosso país.

No Brasil há ainda longa travessia para uma migração inclusiva e equitativa rumo ao mundo dos bytes. Pesquisas apontam graves desafios quanto a acesso, analfabetismo digital, infraestrutura de telecomunicações, assistência técnica, equipamentos precários ou tecnologicamente ultrapassados, custos envolvidos e qualidade de conexão.

A inclusão digital configura, assim, uma das principais demandas da pauta da educação que se coloca para os prefeitos que acabaram de tomar posse e neste fevereiro se confrontam com as questões mais urgentes impostas pela pandemia e com as determinantes estruturantes da formação educacional brasileira.

Entre as urgências, estão as definições sobre oferta segura de aulas presenciais, efetividade das atividades virtuais, fixação de modelos híbridos, ajustes de calendários, suporte psicológico à comunidade escolar, ações de reforço e recuperação, entre outros.

O incremento da digitalidade é de interesse mais que imediato neste momento, mas também se coloca no rol das questões estruturantes. Nesse caminho, o Todos pela Educação propõe às novas lideranças municipais um consistente estudo para a melhoria duradoura do ensino infantil e do fundamental. A agenda contempla quatro eixos: alunos, professores, escolas e quadro técnico qualificado para suporte às atividades escolares.

Preconiza-se, entre outros, “oferta de vagas para atender todos em idade escolar obrigatória e suprir a demanda de creche do município”, garantir a frequência e as devidas condições de aprendizagem, “assegurar uma rotina de trabalho docente que favoreça uma atuação de qualidade”, apoiar o “desenvolvimento profissional contínuo dos professores”, e “oferecer suporte pedagógico de alta qualidade a partir do currículo local”.

Recomenda-se também “valorizar e profissionalizar a gestão escolar”, “garantir infraestrutura apropriada nas escolas”, “apoiar o processo de melhorias na proposta pedagógica, buscando, inclusive, aumentar o tempo da jornada escolar”, “constituir um quadro técnico de profissionais com competências e perfis adequados para a gestão educacional”, “assegurar que os processos de gestão sejam conduzidos de forma eficiente, permitindo uma melhoria da qualidade do gasto” e “estabelecer, sempre que possível, estratégias de colaboração com outros entes federativos”.

Para além dessas acertadas proposições, resta dizer que o Brasil tem experiências de sucesso, aptas a inspirar a ampla reinvenção da educação nacional. No documento do Todos pela Educação, aliás, há vários exemplos. À frente do governo capixaba (2015-2018), entre várias medidas para tornar contemporânea a educação básica, instituímos o Pacto pela Aprendizagem no Espírito Santo (Paes).

Derivado do Programa Ler, Escrever e Contar, por nós implementado entre 2003 e 2010 e inspirado nas experiências do Ceará, o Paes instituiu o regime de colaboração entre as redes estadual e municipais, com vista a fortalecer a aprendizagem da educação infantil até as séries finais do ensino fundamental. As ações previam fortalecer a gestão, melhorar a aprendizagem via ações pedagógicas específicas e subvenção e suporte às redes.

Há também organizações da sociedade civil que acumulam capacidades e conhecimentos em boas práticas que podem guiar-nos na qualificação e atualização da educação no Brasil. Além do Todos pela Educação, podemos citar a Fundação Lemann e os Institutos de Corresponsabilidade pela Educação (ICE), Ayrton Senna, Unibanco, Itaú Social, Natura e Sonho Grande.

Ou seja, definitivamente não é preciso reinventar a roda, basta não descontinuar políticas públicas bem-sucedidas e buscar aprender com quem já encontrou o caminho, ajustando experiências que deram certo às peculiaridades de cada cidade.

Em meio à nebulosidade virótica que ainda ofusca nossos olhares de longo prazo, é preciso ter clareza de que, além de enfrentar as demandas do dia a dia pandêmico, precisamos pensar no futuro já. Isso porque toda crise tem fim e recomeça melhor quem estiver mais bem preparado para tal.

Antigamente, a educação era luz a iluminar a escuridão da ignorância. Hoje, na sociedade da informação, é também essencial para o êxito no mundo produtivo, plenamente conectado à tecnologia, ao conhecimento, à inovação, à produtividade e à competitividade, entre outros marcos indissociáveis da educação de qualidade.

Lembrando o professor italiano Nuccio Ordine, a educação é uma das principais constituintes “do líquido amniótico ideal no qual podem se desenvolver vigorosamente as ideias de democracia, liberdade, justiça, laicidade, igualdade, direito à crítica, tolerância, solidariedade e bem comum”.


ECONOMISTA, PRESIDENTE EXECUTIVO DA INDÚSTRIA BRASILEIRA DE ÁRVORES (IBÁ), MEMBRO DO CONSELHO DO TODOS PELA EDUCAÇÃO, FOI GOVERNADOR DO ESPÍRITO SANTO (2003-2010 E 2015-2018)

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