A instabilidade e suas razões

Se depender de Bolsonaro, corremos, sim, o risco de um governo autoritário

Aloísio Toledo César*, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2019 | 03h00

Neste momento em especial da vida política brasileira, temos à frente da República um presidente que busca livrar-se psicologicamente de culpa e de atos social e politicamente inaceitáveis, atribuindo-os a outros.

Todos nós, brasileiros, estamos percebendo que não é fácil conhecer um governante e por isso mesmo vale um rápido mergulho na psicanálise, como fez Freud, para melhor compreender o comportamento humano. Aquele extraordinário psicanalista foi talvez quem mais se aprofundou no reino inconsciente de desejos reprimidos que levam os homens a se afastar das regras de condutas aceitáveis.

Freud observou que no reino político, mais do que em qualquer outro, o inconsciente se manifesta e por isso os homens raramente admitem motivos egoístas, ao mesmo tempo que procuram racionalizar e criar bodes expiatórios para justificar crueldades. Esse o motivo também por que projetam a culpa sobre os outros, responsabilizando-os – como, por exemplo, no caso das queimadas na Amazônia.

Para predizer e compreender o comportamento de políticos com essa natureza, a atenção deve estar voltada não apenas para os seus atos, mas para os motivos psicológicos existentes por detrás deles. É extremamente preocupante, no caso do nosso presidente, que ele não se preocupe em ser compreendido nem demonstre que é capaz de compreender a realidade que enfrenta no dia a dia.

Neste momento em especial, pesa sobre ele uma forte incompreensão universal, à qual não parece dar muita importância. Praticamente todos os países se incomodam com a destruição da Amazônia, mas nosso presidente age como se todos estivessem errados e somente ele estivesse certo. Às vezes parece preferir o isolamento, abandonando de vez o caminho mais seguro da diplomacia (de outra parte, é incrível não perceber que a indicação de um de seus filhos para a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos choca grande parcela dos brasileiros, soando como algo leviano e ao mesmo tempo autoritário).

Essa conduta faz lembrar Erich Fromm, outro psicólogo de expressão, para quem o homem moderno está possuído por sentimentos de inferioridade, insegurança, impotência, solidão, humilhação e insignificância. Por isso é muitas vezes levado a aparentar superioridade, segurança, poder, integração, prestígio e glória na área política, “especialmente por meio de ideologias e movimentos totalitários”.

Os estudos desse psicanalista indicam também que na complexa sociedade urbana e industrial o homem se defronta com grandeza, forças impessoais e questões complicadas que desafiam sua compreensão, diminuem seus poderes de controle e o fazem sentir-se isolado e impotente.

Nesse panorama, incapaz de enfrentar conscientemente a adversidade, ele foge de sua liberdade para os braços de ideologias totalitárias, as quais oferecem explicações agradáveis para o seu destino, assim como respostas amplas, embora simples, para os seus problemas.

Os cientistas da psicologia são unânimes em afirmar que as ideologias e os movimentos totalitários oferecem refúgio contra as ansiedades e a falta de significação da existência individual. É como se libertassem os homens de seus complexos e fraquezas.

Percebe-se que o País vive um desses momentos nas mãos de pessoa instável e fortemente autoritária, a ponto de a toda hora repetir: “Quem manda aqui sou eu”. Esse comportamento já o levou a externar condenável conduta em relação ao ministro Sergio Moro, talvez a pessoa mais admirada entre os brasileiros.

Com o propósito de ampliar o combate à corrupção que vinha travando na Operação Lava Jato, Sergio Moro aceitou convite de Jair Bolsonaro para assumir incondicionalmente o Ministério da Justiça, ao menos no referente à corrupção. Mas com o surgimento de fatos novos e incompreensões que a toda hora abalam o governo, o presidente passou várias vezes por cima da autoridade de Moro, humilhando-o daquela forma já conhecida: “O ministro da Justiça é ele, mas quem manda sou eu”.

Também em relação a outros auxiliares a insegurança pessoal do presidente se reflete na forma de autoritarismo, deixando claro que, se depender dele, estaremos, sim, correndo o risco da implantação de um governo autoritário (isso num momento em que o País parece desejar apenas mais competência e respeito).

O totalitarismo registrado em diferentes partes do mundo sempre esteve relacionado a fatores com natureza de crise, como catástrofe econômica (Venezuela), humilhação nacional e desorganização social (Cuba). Lembre-se que os cubanos se voltaram contra o então presidente Fulgêncio Batista porque ele se tornara abertamente corrupto e por suas políticas ditatoriais.

Há um fato histórico que assusta, pelo risco de poder se repetir. A persistente tirania e a grande ineficiência do regime de Batista fornecera o catalisador que permitiu a um líder carismático, Fidel Castro, reunir os grupos descontentes na sociedade cubana.

Fidel havia sido condenado a 15 anos de prisão, mas foi libertado em 1955 e logo partiu para o México, onde treinou uma força expedicionária para futura invasão de Cuba. No Brasil temos o ex-presidente Lula cumprindo pena e a cada dia ganhando maior força política, graças a um governo inseguro que parece desabar ladeira abaixo. Incrível, as incertezas de Bolsonaro são ótimas para Lula e o PT.

Além disso, os ataques pessoais tão característicos do presidente, mais a inclinação para repetir que ele é que manda, deixam entrever que não oscilará no caminhar para um regime autoritário. Melhor seria se desse mais atenção à enorme parcela da população que não tem nada e não recebe nada.

*DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP, FOI SECRETÁRIO DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM

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