A lição do Flamengo

Está na hora de seguir o exemplo e importar um técnico português para cuidar de nossa educação.

Simon Schwartzman, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2022 | 03h00

O 7 x 1 derrubou o mito de que bastavam o talento e a esperteza de alguns jogadores para sermos os melhores do mundo, e o futebol brasileiro só começou a sair do buraco quando o Flamengo decidiu importar um técnico português. Está na hora de seguir o exemplo e importar um técnico português para cuidar de nossa educação.

A Copa do Mundo da educação é o exame Pisa, que avalia estudantes de 15 anos que estão completando a educação fundamental em dezenas de países em leitura, Matemática e Ciências. A nota média em cada uma das provas é 500, e o Brasil, desde que começou a participar, passou de 386 em leitura, em 2000, para 413 em 2018. Entre 2009 e 2018, os resultados praticamente não se alteraram em nenhuma das três áreas. Isso significa que, em 2018, metade dos jovens que terminam o ensino médio não tem a capacidade mínima de leitura esperada (abaixo do nível 2) e só 2% demonstram alto desempenho (acima do nível 4). E isso apesar de que os investimentos públicos por aluno tivessem mais que triplicado no período.

Portugal começou um pouco melhor, mas bem abaixo dos outros países europeus, mas em 2018 já havia se aproximado da média europeia. Em 2018, 20% dos estudantes portugueses ainda terminavam o ensino médio abaixo do mínimo esperado em leitura e 7% demonstraram alto desempenho.

Existe uma clara associação entre desempenho escolar e a condição social das famílias dos estudantes, e uma das primeiras políticas de Portugal, na gestão da ministra Lurdes Rodrigues (2005 a 2009), para melhorar a qualidade de sua educação foi implantar uma série de programas destinados a apoiar e melhorar o desempenho das escolas que atendem às populações de baixa renda. Depois, na gestão de Nuno Crato, entre 2011 e 2015, a ênfase foi estabelecer metas claras de desempenho em leitura, Matemática e Ciências, com mais horas de ensino nessas matérias, um exame nacional obrigatório de Matemática e Português ao final do ensino médio, reforço na formação de professores e maior autonomia para as escolas se responsabilizarem pelo cumprimento de suas metas. Houve, também, um investimento na diversificação do ensino médio, criando oportunidades adequadas de formação para estudantes com diferentes níveis de desempenho.

Para implantar essas políticas, foi necessário dissipar a neblina de ideias pedagógicas confusas e supostamente “progressistas” que vicejavam tanto em Portugal quanto no Brasil, e que ainda estão à vista para quem queira ler as bases nacionais curriculares brasileiras aprovadas em 2017.

Num pequeno livro publicado em 2006, O eduquês em discurso direto, o professor de Matemática e, depois, ministro da Educação Nuno Crato faz uma crítica contundente ao que ele denomina “pedagogia romântica e construtivista” que impede que as escolas se empenhem em sua tarefa central, que é a formação dos alunos a partir da base indispensável da leitura e da Matemática. O livro foi reeditado no Brasil em 2020 e é de leitura obrigatória para quem queira entender a confusão em que nos metemos.

Não há como reproduzir os argumentos aqui, mas vale a pena reter os pontos principais das críticas que faz: ao “romantismo”, que remonta às ideias de Jean-Jacques Rousseau, de valorização do instintivo em detrimento da racionalidade; ao construtivismo, que supõe que os conhecimentos devem ser “construídos” pelos estudantes, e não precisam ser ensinados pelos professores; ao abuso de conceitos pouco claros como “competências”, “interdisciplinaridade” e contextualização”, em detrimento da transmissão de conteúdos; e à “educação centrada no aluno”, que questiona a importância da educação organizada e sistemática, da disciplina e da avaliação regular dos resultados.

É certo que estes conceitos da “educação nova”, que na realidade datam do século 19, vieram em resposta à rigidez da educação tradicional, formal e burocrática, que sufoca os estudantes, os obriga a memorizar informações sem sentido, não toma em conta as condições pessoais, sociais e culturais de suas famílias e ignora as diferenças de classe que reproduz. Mas não tem de ser uma coisa ou outra e não se pode, em nome do respeito aos alunos e suas circunstâncias, jogar fora as crianças com a água suja do banho.

Quando e se o técnico português chegar, seu primeiro desafio será deixar claro que quem manda no jogo – e no dinheiro – é ele, e não os cartolas da educação. Feito isso, será preciso refazer a base nacional curricular, com prioridades claras de formação e expurgada do eduquês; cuidar da formação de professores, para que efetivamente aprendam a ensinar; fazer com que a pré-escola seja um espaço de aprendizagem, e não depósito de crianças; garantir que a alfabetização se complete aos 7 anos; retomar a reforma do ensino médio, deturpada de seus objetivos, com opções claras e apoio à formação técnico-profissional; e estabelecer um sistema efetivo de avaliação de resultados escolares, com provas obrigatórias ao final da educação básica, e um Enem inteligível e compatível com um ensino médio diversificado.

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SOCIÓLOGO, É MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS

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