A maldição da desigualdade

São trágicas as consequências de não aprender na idade certa as palavras e sua articulação rigorosa, pois são a matéria-prima do pensamento.

Claudio de Moura Castro, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2021 | 03h00

Sociedades muito desiguais, como a nossa, contam com a educação para reduzir as distâncias entre ricos e pobres. Porém, espíritos conspiratórios acusam os ricos de impedir uma boa educação para os pobres. Verdade?

A teoria conspiratória é frágil. Ademais, outros fatores impedindo a redução das desigualdades são poderosos – não apenas em nossas terras tupiniquins.

Para entender, tomemos dois países emblemáticos.

Os Estados Unidos são um dos berços da democracia, a terra sonhada das oportunidades e onde, desde o século 18, se acredita e investe pesadamente em Educação. Vale a pena ver o que acontece lá.

Foi realizada uma pesquisa gigantesca com escolares, o Coleman Report. Surpresa, ao longo das séries, a desigualdade inicial entre alunos pobres e ricos (ou negros e brancos), em vez de se reduzir, era amplificada pela escola (a única exceção era a Nova Inglaterra, onde a distância tinha uma modesta redução).

O segundo exemplo é Israel. Além da obsessão da cultura judaica pela educação, o país convive com ameaças externas. Assim sendo, não pode descuidar-se de promover a integração da sua sociedade para melhor enfrentá-las. Portanto, tem todas as razões para tornar mais parecidos os filhos de imigrantes que chegam de sociedades com níveis de desenvolvimento muito diferentes. Em particular, os asquenazes, vindos da Europa, vêm com muito mais preparo escolar que os sefaradim, do Mediterrâneo.

Portanto, há razões culturais e de segurança para que as escolas de Israel promovam a redução das distâncias entre os dois grupos. Porém uma pesquisa da Lear Foundation mostrou que isso não acontecia.

As distâncias não se reduzem, apesar do espírito igualitário americano e das fortes tradições educacionais judaicas. Essa é uma conclusão alarmante. Se fosse uma conspiração, seria até mais fácil de neutralizá-la. Que fatores profundos explicam esta impotência da escola?

Parte da explicação está nos valores e nas atitudes que são moldados no seio da família. Os lares mais educados transmitem aos filhos uma socialização que favorece os bons resultados escolares – hoje falamos do socioemocional. Mas este seria outro ensaio. Exploro, aqui, apenas o lado cognitivo.

Desde a Grécia clássica, a escola tem a linguagem como denominador comum. Faz sentido, pois pensamos com palavras. Para estabelecer a comunicação precisa sob a qual operam as sociedades modernas, usamos palavras sob regras estritas e mostrando diferenças sutis. Palavras transmitem todos os assuntos do currículo. O ponto de partida das desigualdades é que famílias menos educadas estão distantes da linguagem da escola, também chamada de “norma culta”.

Em 1995, B. Hart e T. Risley realizaram um estudo em que estimaram o estilo de interação das crianças com os pais. Contaram, também, o número de palavras já ouvidas, quando as crianças atingem os três anos de idade. Os resultados desafiam a imaginação. Crianças de famílias bem-educadas ouviram 30 milhões de palavras a mais do que as outras, de origem pobre. Estas, além de conhecerem menos palavras, praticavam uma interação verbal mais tosca e limitada. Ao crescerem, tinham grandes dificuldades em acompanhar o ritmo da escola. Por isso, são trágicas as consequências de não aprender na idade certa as palavras e sua articulação rigorosa, pois são a matéria-prima do pensamento.

Quem ouviu 30 milhões de palavras a mais tem um repertório muito mais amplo. Por exemplo, temor, medo e pavor são manifestações da mesma ideia, em diferentes graus. Um vocabulário estreito perde tais nuances, tornando o pensamento mais vago e menos analítico.

Uma tese equivalente é ilustrada por outra linha de estudos. Serviu de metáfora o livro Mowgli, o menino-lobo (Rudyard Kipling). Criado pelas lobas, até ser resgatado, Mowgli não aprendeu palavras. Poderia aprender a pensar? Segundo os linguistas e psicólogos, estaria totalmente incapacitado para operar como uma criança normal que, desde cedo, lidou com palavras e suas conexões.

Há uma terceira linha de estudos, numa área conhecida como Sociolinguística. Basil Bernstein estudou a forma de comunicação entre pessoas com diferentes níveis de escolaridade. Dentre os menos educados, o que é dito faz sentido apenas no contexto vivido naquele momento. “Me dá isso” só é inteligível por quem está presente. Ora, a linguagem da ciência, dos contratos e dos manuais, por necessidade, tem de prescindir de contexto. Embora os pobres usem a mesma língua, fazem-no de formas distintas.

Pobres e ricos tendem a frequentar escolas muito diferentes. Equalizar sua qualidade é uma obrigação cívica de todos. E trata-se de uma tarefa hercúlea.

Porém, como sugere o presente ensaio, oferecer escolas de excelência para todos seria insuficiente. Pelas razões apontadas, há causas mais profundas para a diferenciação do desempenho. Portanto, o desafio é muito mais assustador. Mas não temos opção senão enfrentá-lo com coragem, determinação e criatividade. Com boas escolas e pré-escolas, a geração seguinte terá melhores chances de ser menos desigual. E há estratégias de curto prazo interessantes, como ensinar os pais a estimular intelectualmente os seus filhos.

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M.A., PH.D., É PESQUISADOR EM EDUCAÇÃO

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