A máscara de Lula cai de novo

Levado a petista por Covas, Emílio salva Odebrecht e quase afunda Petrobrás

José Nêumanne, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2020 | 03h00

Lula foi poupado pelo simpatizante Joaquim Barbosa, relator do chamado mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), pela presunção de que não poderia responder por crimes de subordinados, por não ser diretamente responsável por suas nomeações. A Ação Penal 470 condenou apenas bagrinhos sem mandato e poupou chefões políticos das próprias penas após indulto da companheira “presidenta” Dilma Rousseff e do perdão subsequente da maioria dos ministros da dita Suprema Corte.

Citado em delações premiadas de corruptores e corruptos de vários escalões, o ex-presidente foi condenado em três instâncias por nove a zero e confinado numa sala de hospedagem de agentes da Polícia Federal em Curitiba, até ser liberado dessa privação por seis dos 11 ministros do STF. Desde sempre insistiu, e o faz até hoje – mais preso no próprio apartamento luxuoso de São Bernardo do Campo do que na sala de estado-maior, o chefão dos três mandatos e meio dele próprio e do poste Dilma, que elegeu e reelegeu –, em se dizer inocente. Para tanto recorre ao artifício da presunção de inocência, que perdeu na condenação em segunda instância, depois resgatada pelos amigões das altas instâncias judiciais, e da perseguição política dos inimigos do povo, atribuindo-se a condição de “mais honesto do Brasil”. As investigações da Operação Lava Jato, chefiadas pelo procurador Deltan Dallagnol, e as condenações do ex-juiz Sergio Moro e de sua substituta eventual, Gabriela Hardt, foram jogadas no lixo da mixórdia dos entulhos ideológicos do socialismo de rapina.

A abundância de provas conseguidas por pistas obtidas por ex-executivos das empreiteiras, da petroleira estatal e do Legislativo, que delataram comparsas e chefes em troca de alívio de pena, não abalou a férrea convicção de seus devotos domésticos e de além fronteiras. Mas a história implacável não se cansa de produzir mais evidências, apesar de sua liberdade, de que não se aproveita pela reação popular a seu evidente cinismo e pelo ressurgimento de fatos que o fanatismo não logra enterrar.

Para desmascarar Lula, seus acólitos e seus falsos opositores remunerados pelo propinoduto comum se deparam agora com uma reportagem investigativa que desenterra os primórdios do maior escândalo de corrupção de todos os tempos no Brasil. A mesma revista Piauí, insuspeita de culto ao fascismo, a cujos arreganhos o PT atribui a perseguição ao sacerdote supremo de sua seita, que perdoa o furto da poupança popular pelas pretensas vantagens usufruídas pelo povo em suas gestões, volta à tona para esclarecer de vez a composição química do veneno das ratazanas da República.

Antes da atuação da Operação Lava Jato, a repórter Consuelo Dieguez havia partido do desabafo do chefão do PCdoB da Bahia Haroldo Lima narrando as votações do Conselho da Petrobrás que deram início ao assalto aos cofres da petroleira estatal (Petróleo depois da festa, de 2012). Mesmo um leitor leigo como o autor destas linhas detectou naquele texto profético o ácido que levou a enormes prejuízos produzidos pela compra mais que onerosa da refinaria “ruivinha” da Astra Oil e pelo acordo com acionistas americanos para remunerar seus prejuízos bilionários provocados pela corrupção.

A edição nas bancas da mesma Piauí presenteia os leitores com texto de Malu Gaspar narrando em detalhes a anabolização da sobrevalorização dos contratos da Petrobrás e de outras fontes de despesas públicas ao longo dos dois desgovernos de Lula e do um e meio de sua poste. Conforme o relato, o ex-governador paulista Mário Covas, que conhecera Lula quando ambos atuavam em favor da candidatura ao Senado de Fernando Henrique pelo MDB, apresentou-o ao patriarca da Odebrecht, Emílio. Essa seria a oportunidade que o magnata baiano teria para fugir de uma situação próxima da bancarrota da empresa que herdara do pai, Norberto. Manifestada à época em que PT e PSDB fingiam ser adversários (e até inimigos), essa cordialidade figura na pré-história da aliança secreta que tornaria os tucanos beneficiários de propinas distribuídas fartamente entre aliados, como PMDB, PP, PCdoB, PSB e muitos outros.

A narrativa prossegue com a remoção de adversários do empenho do PT em quebrar a Petrobrás para salvar o patrimônio da família do “amigo do meu pai”, como tentou um antigo executivo da petroleira, Rodrigo Manso, substituído por Paulo Roberto Costa, espécie de delator premiado símbolo da devassa da Lava Jato.

Conforme o relato da Piauí, este foi introduzido no roteiro pelo deputado paranaense José Janene, do PP de Paulo Maluf, que morreu no transcurso da devassa, mas deixou indelével sua marca registrada. Quem o introduziu nas tratativas foi José Dirceu, que não foi perdoado pelo STF, assim como Pedro Corrêa, por terem delinquido, cumprindo pena na Papuda. Dirceu hoje goza os benefícios patrocinados pelo presidente do STF, Dias Toffoli, empregado da vida toda do PT e, segundo Marcelo, filho de Emílio, cognominado “amigo do amigo de meu pai” no propinoduto.

A mesma reportagem registra o emprego do ex-sindicalista Frei Chico, irmão do papa do PT, de assessor para desmobilizar greves, do que Lula foi acusado por Emílio em delação premiada. E também a adoção desavergonhada da propina, por decisão de um lobista da Odebrecht, Márcio Faria, ao autorizar pagamento de R$ 8 milhões “não contabilizados” a Pedro Barusco, gerente da área de Renato Duque, tido como homem de Dirceu na diretoria da Petrobrás e falso “durão”, como mais tarde o comprovaria a Lava Jato.

A história é absurda e porca. É a milésima vez que falsos heróis do povo, como Lula e Dirceu, são desmascarados em relatos históricos isentos, que põem por terra versões fantasiosas cretinas, como as postas em circulação pela Vaza Jato do ianque Glenn Greenwald, a serviço do PT. Mas dificilmente produzirá os punitivos efeitos necessários. Infelizmente.

JORNALISTA, POETA E ESCRITOR

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