A ocupação e a destruição da Terra

A começar pela Amazônia. O grande desafio hoje é como proteger nosso espaço, seus recursos não são inesgotáveis

Aloísio de Toledo César*, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2019 | 03h00

Nestes tempos de clima cada vez mais violento, parece inacreditável que a maior parte dos seres humanos não queira entender esse recado. Realmente, a humanidade continua a se comportar como se os suprimentos de recursos não substituíveis em nosso planeta fossem inesgotáveis. Além disso, também fecha os olhos para o ensinamento diário de que o ar e o mar não suportam mais a carga diária de poluição.

No caso particular do nosso país, aqui temos o principal pulmão da Terra, a Amazônia, que continua a ser progressivamente ocupada e destruída – pelo jeito, vai acabar como nosso cerrado, que praticamente não mais existe. Nos limites da inteligência que Deus lhe deu, sem muita generosidade, o presidente Jair Bolsonaro mostra-se ofendido quando lhe falam sobre a vigorosa e permanente destruição da Amazônia.

Os europeus, americanos e asiáticos percebem essa lamentável destruição, que aqui não é acompanhada de uma ação protetora confiável. Nosso presidente talvez não acredite mesmo nessa destruição e age como se a Amazônia, assim como o resto do planeta, não precisasse de um governo que salve as nossas matas e a vida que há nelas.

Parece incrível comprovarmos que o homem passou a representar uma ameaça à habitabilidade de todas as formas de vida existentes em nosso planeta. A biosfera, essa película de terra firme, água e ar, que envolve o globo terrestre é o único espaço em que os seres vivos conseguem sobreviver.

Por sua culpa exclusiva, ou, quem sabe, por castigo, o homem hoje representa a principal ameaça à sua própria existência, bem como às demais forma de vida. Aliás, essa espécie que por tola presunção batizou a si própria de Homo sapiens é a única que adquiriu o poder de destruir toda forma de vida neste planeta.

Caso o orgulho e a vaidade dos homens não os deixe abandonar a cegueira e passar a agir em favor da Terra, é mesmo possível que no futuro ela se converta num daqueles planetas sem vida que os astrônomos enxergam no espaço cósmico.

Há pessimismo nessa visão? Se fizermos um retrospecto da presença do homem na Terra veremos que ele somente passou a destruí-la a partir de aproximadamente 5 mil anos atrás. Os historiadores ensinam que o acontecimento histórico mais importante na vida do homem e do nosso planeta foi o despertar consciente, ou seja, aquele momento mágico em que a percepção ensinou ser necessário viver em sociedade, enterrar os mortos e acreditar na existência de algo mais além do próprio corpo, abrindo caminho para as religiões.

Desde aquele despertar, uma espécie de demônio parece haver contaminado o ser humano, ensinando-lhe um festival de maldades, incluída a pior delas: o poder tecnológico. Foi o começo da destruição de nosso planeta, isso depois de alguns milhões de anos em que nossos ancestrais lascaram a primeira pedra e produziram as primeiras e primitivas ferramentas.

Existem pequenas divergências a respeito de onde começou a existência da nossa espécie e a consequente destruição dos espaços. Majoritariamente, os cientistas acreditam que a vida consciente do ser humano teve início no Norte da África, de onde se expandiu para a Ásia e a Europa.

O historiador inglês Arnold Toynbee acreditava que o Homo sapiens abriu caminho para as Américas por terra, advindo do Nordeste da Ásia por um istmo temporário que depois submergiu no Estreito de Behring. Já o seu colega americano Edward Burns entende que as condições climáticas favoráveis na parte sul da África Central e da Ásia Central favoreceram a evolução de uma diferenciada espécie de humanos, que depois migraram no sentido norte e posteriormente chegaram à América.

Naquele início da história da humanidade, a evolução social e tecnológica da espécie tornou possível a ocupação de novos espaços, mas, lamentavelmente, ocupar e destruir converteram-se praticamente em termos sinônimos. À medida que os homens avançavam pelo planeta para ocupar novas áreas habitáveis, foi-se expandindo o processo de destruição, que hoje é extremamente grave.

Há 200 anos, um inglês que usasse carvão para dar início ao processo de industrialização jamais imaginaria que a Terra poderia ter poluição no solo, no mar e no ar. A verdade é que cada espécie de ser vivo faz mudanças em seu ambiente para se manter viva e esse, sem dúvida, é o principal problema a ser enfrentado pela inteligência humana.

Como parar toda essa destruição, se ela proporciona melhores condições de vida? A tecnologia avançada, graças à substituição da pedra pelo metal, por incrível que pareça, tornou a sobrevivência da humanidade menos segura e agora nos deixa na expectativa de que novas descobertas invertam essa tendência.

O lugar em que podemos viver na Terra, ou seja, nosso hábitat, é mesmo aquela película de terra firme, água e ar que envolve o globo terrestre e possui um estoque limitado dos recursos de que as várias espécies necessitam para viver. É, enfim, a biosfera.

O grande desafio do presente é encontrar uma forma de proteger esse espaço, porque os recursos nele existentes não são inesgotáveis. É dessa perspectiva desanimadora que emergem os sonhos de conquistar e habitar novos planetas, mas isso não será como descobrir a América ou a Austrália.

A Terra está a uma certa distância do Sol que torna possível a vida. Se estivesse um pouquinho mais próxima, ou um pouquinho mais distante, não haveria vida. No imenso universo talvez haja outro planeta com características e condições iguais às nossas. O homem talvez um dia o encontre, mas o melhor, mesmo, é desvendar novas e eficientes formas de preservar o nosso planeta e a imensa vida que há nele.

*DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP, FOI SECRETÁRIO DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM

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