A pandemia e a saúde da economia

Cabe uma liberação controlada e focada em atividades econômicas específicas

Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2020 | 03h00

Temo que a chegada e a reversão do pico da crise que a covid-19 impôs ao Brasil tomem mais tempo do que em países onde isso já aconteceu. Não temos ampla testagem de sintomas e contágios, nem assistência médica suficiente. Especialistas dizem que sete dias após o contágio os efeitos da enfermidade são muito mais acentuados. O ideal seria que testes antecipassem o tratamento.

Unidades de terapia intensiva (UTIs), respiradores, testes, leitos e pessoal da área médica são escassos diante das necessidades. O Estado do Amazonas, daquele tamanhão, só dispõe de UTIs na capital. Os fatos falam por si, pois esse mesmo Estado se destaca pelo forte avanço da enfermidade.

Nossa coesão social também é baixa e os apelos a isolamento e cuidados pessoais nem sempre são ouvidos. O segmento mais pobre da população é o mais atingido e a própria pobreza dissemina a doença, pois tem moradias de pequena dimensão, pouco isoladas umas das outras, saneamento frágil. O maior tamanho das famílias também contribui para o contágio. 

De olho nos números da covid-19, costumo recorrer ao jornal britânico Financial Times (FT), que tem detalhada cobertura internacional sobre o assunto. Nos últimos dias, no Brasil, o número de novas mortes continuou batendo recordes, estamos apenas abaixo dos EUA quanto a esse número. Mas também é preciso levar em conta as grandes diferenças de tamanho da população, o que o FT faz num de seus gráficos. Aí o Brasil fica no meio do gráfico, com cerca de 3,4 mortes por milhão de habitantes no dia 18/5, em média móvel de sete dias, enquanto vários países superaram em muito esse número, chegando, no pico da doença, a cerca de 18 na Espanha e 25 na Bélgica. 

O mais importante, nesse gráfico e no de total de mortos, é que o Brasil mostra uma linha sempre crescente, ao contrário do que já acontece na maioria dos demais, que demonstram haver atingido o seu pico. Esta é a questão: quando virão os nossos picos? Não tenho a menor ideia, mas não estão à vista, em face das razões inicialmente apontadas. Escrevi picos porque serão muitos, dada a enorme dimensão e diversidade do País e seus 5.570 municípios. Esse número também implica um enorme problema de gestão. 

Passando à economia, seu estado também é muito preocupante. Quando veio a covid-19, ainda não se havia recuperado da depressão iniciada em 2015. E agora esse buraco se aprofunda continuamente. Os números mostram que em março, com impacto apenas na segunda quinzena, a indústria caiu 9,1%; o comércio varejista, 2,5%; os serviços, 6,9%; a arrecadação federal 3,3%. E foi a pior para o mês em dez anos. Isso precisa ser realçado, pois o governo federal vem expandindo fortemente suas despesas, sua receita cai, seu déficit primário (sem os gastos com juros) cresce e sua dívida sobe como fração do cadente produto interno bruto (PIB). Se essa escalada não for contida, poderá levar a uma crise financeira associada à dívida pública. Duas agências internacionais de classificação de risco já atualizaram a perspectiva do rating soberano do País, de estável para negativa. 

Assim, a espera pelos picos da doença e de indicadores de sua reversão não pode seguir indefinidamente, porque cabe preservar também a saúde da economia, a que paga a conta. Se os picos não vierem até o fim deste mês, devem ser tomadas medidas para conviver com a covid-19. O distanciamento social ajuda, mas não pode ser absoluto, uma vez que também traz grandes males, como ao prejudicar atividades econômicas que garantem o sustento de importantes segmentos da população, principalmente os mais pobres. Cabe uma liberação controlada e focada em atividades específicas da economia, por localidades e com protocolos que estabeleçam equipamentos de proteção individual, distâncias mínimas entre as pessoas em locais fora de casa e que elas sejam frequentemente testadas para saber se houve contágio ou não. 

O governo mostra-se avesso a ter um papel mais direto no fomento da economia, mas é preciso agir também dessa forma, pois não dá para ficar esperando que tudo se normalize automaticamente. Ele argumenta que carece de recursos para investimentos e que só o setor privado pode fazê-los em magnitude relevante. Mas esse setor quer saber se seu investimento produzirá retorno superior ao do capital próprio em usos alternativos, e ao do capital obtido via financiamentos. Quer também ter a confiança de que o governo manterá suas finanças sob controle, respeitará contratos e atuará de forma a criar perspectivas positivas quanto ao futuro do PIB. Planejar e criar esse quadro toma tempo, mas por isso mesmo é preciso atuar desde logo.

Um bom início seria dar atenção à infraestrutura, dadas as carências do País nessa área, como em saneamento básico, gastando ao menos para elaborar bons projetos executivos de obras que possam ser oferecidos em condições atraentes ao setor privado. A construção civil é outro entre os setores carentes de maior atenção. 

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP. É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.