A pena de morte do nosso dia a dia

Se não aprendermos que a natureza tem suas regras, mataremos os alertas da ciência, tal qual a polícia mata a esmo no Brasil.

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2021 | 03h00

O absurdo se uniu ao disparate e à insensatez e, agora, corremos o risco de pensar até que dessa perniciosa união possa surgir uma nova normalidade. Despreocupados, caminhamos rumo ao horror tal qual a menina do chapeuzinho vermelho saiu estrada afora, por um caminho deserto sem saber que o lobo estava ali por perto. Os doces para a vovozinha lhe tiravam a visão.

Não me refiro apenas aos bolsonarianos tempos iniciados em janeiro de 2019. O horror vem de muito antes e, passo a passo, instalou-se no aparelho estatal e daí passou à sociedade inteira. Tudo, inclusive a própria vida, vulgarizou-se ou se banalizou há tempos, crescendo e se acentuando no atual governo.

No Brasil não há pena de morte. Por mais terrível e brutal que seja o crime, um juiz não pode condenar o assassino à pena máxima, mesmo que a mais perversa crueldade esteja documentada em cada folha do processo. No entanto, a polícia mata abertamente e a esmo, como se usufruísse de um direito próprio e intransferível que deva aplicar por intuição, sem nem sequer investigar.

Sim, pois a grande maioria das vítimas não resulta de confrontos entre suspeitos e policiais militares. Na maioria das vezes, a polícia chega atirando e, assim, mata sem saber sequer se dispara contra o verdadeiro delinquente. É como se o tiro tivesse prioridade e obedecesse a um lema trágico e obsceno: “Primeiro se atira, depois se investiga”.

Parece tratar-se de um novo torneio Rio-São Paulo, em que as duas maiores cidades do País disputam, agora, a hegemonia, tal qual em tempos passados se enfrentavam no futebol. O antigo torneio Rio-São Paulo deu origem aos campeonatos nacionais de futebol de hoje. No dia a dia da insegurança das grandes cidades, a atual guerra civil encoberta se transforma em confrontação direta na qual não se confia sequer nos que deveriam proteger a sociedade inteira.

No Rio de Janeiro, as chamadas “milícias”, com membros recrutados na própria polícia, já têm, em várias regiões, mais poder que o Estado em si ou se substituem a ele. São Paulo não chegou a tal aberração, mas a truculência policial pode (pelo medo) abrir caminho para a implantação do poder das “milícias” apoiadas no narcotráfico.

Tão só no primeiro semestre de 2020, 3.148 pessoas foram mortas pela polícia no Brasil. No mesmo período, 176 policiais foram mortos. Não são os números díspares, porém, que marcam e definem o horror. O que se espera do assaltante ou do delinquente é que seja o nosso contrário, disposto a tudo para nos subjugar. O que se espera da polícia é que seja nosso defensor e aliado e que se dedique a reprimir o crime, não a matar.

No último domingo de novembro, o Fantástico, da TV Globo, mostrou indesmentíveis cenas do morticínio perpetrado pela polícia em São Paulo. Viu-se, inclusive, policiais desligando as câmeras presas ao uniforme e, assim, mudando armas de lugar para simular que haviam sido atacados e apenas “revidado” em “legítima defesa”.

Por outro lado, numa mostra do novo “torneio Rio-São Paulo”, apareceram cenas das oito pessoas mortas dias antes pela polícia fluminense num manguezal. O horror mostrado pelas imagens televisivas é indesmentível e vale mais do que qualquer descrição minuciosa.

Qual a causa dessa distorção das funções policiais? Será um vício comum à maioria do aparelho público estatal e que, por isso, deve-se analisar em defesa das corretas funções do próprio Estado?

É comum que não se busquem as origens do mal, seja ele qual for. Um exemplo a esmo (sem qualquer relação com o que dizemos da pena de morte aplicada pela polícia, mas que mostra o descaso geral) é o aparecimento de tubarões próximos a Ubatuba, no litoral paulista, por duas vezes em novembro, ferindo banhistas.

A remoção e dragagem da areia do mar foi a causa aparente da perigosa presença de tubarões. Mesmo assim, próximo dali, em Ilhabela, a prefeitura prepara-se para dragar e retirar areia do mar e alargar a praia. Procura, com isso, repor a erosão das faixas de areia provocadas pelas obras do Porto de São Sebastião e do terminal da Petrobras, que mudaram o fluxo d’água no entorno da ilha, estreitando as praias.

A falta de um planejamento amplo, que abarcasse toda a região marítima quando o porto e o terminal foram construídos, acabou impactando no conjunto das praias do litoral norte. Será que a expansão e o embelezamento ainda maior das praias de Ilhabela não perceberam que a natureza tem regras próprias e que nós, humanos, temos de respeitá-las e coabitar com elas?

Ou continuamos com a velha e carcomida ideia (ou concepção) de que o ser humano pode subjugar a natureza e fazê-la escrava das extravagâncias do nosso dia a dia?

Se assim for, nada teremos aprendido da reunião de Glasgow sobre as mudanças climáticas e estaremos matando os alertas da ciência, tal qual a polícia mata a esmo no Brasil, sem nem sequer investigar.

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JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UnB

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