A peste e a reforma das reformas

Esta é a última chance de o Brasil acabar com a privilegiatura medieval. Ou mergulhará no caos

Fernão Lara Mesquita, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2020 | 03h00

O problema é de ajuste fino. Definir o que é ou não essencial. Fechar tudo, sem mais, vai caindo a ficha do mundo inteiro, é mais ou menos como nos suicidarmos antes que o vírus nos pegue. As economias não podem ser desligadas e ligadas impunemente. Elas morrem e têm de nascer de novo, que são processos muito mais demorados e dolorosos.

Dinheiro x vidas? Falso dilema. Economias são pessoas. Sonhos feitos e desfeitos. Semeaduras de saúde ou de doenças futuras. Plantações de paz ou de violência. Partindo do nada, o tsunami econômico politicamente fabricado em nome da contenção da pandemia do coronavírus está provocando uma devastação que, considerado apenas o ponto a que já chegou, muito abaixo da crise de 2008, para a qual havia todos os fundamentos econômicos e financeiros concretos, será um marco divisor na História da humanidade.

Nem os Estados Unidos, com todo o seu poder e sua glória, poderão mantê-las vivas artificialmente distribuindo um trilhão de dólares por quinzena para cima e chequinhos de campanha eleitoral para baixo, à la Lula. No Brasil os 15 dias de pânico já quebraram mais de R$ 1,5 trilhão no valor de tudo que está nas bolsas, mais de 20% do PIB...

Investir em precisão e comedimento é a resposta correta, como mostra o argumento indiscutível do resultado que se pode aferir comparando a destroçada Europa Latina, de que somos filhos, toda ela em “rigorosa quarentena” e com índices de mortalidade que começam por mais que o dobro dos nossos 1,6% e vão até aos quase 9% da Lombardia italiana, com Alemanha, Taiwan, Cingapura, Coreia do Sul e outros que têm colhido índices de letalidade inferiores a 0,4%.

Não há ventos favoráveis para o navegante que não sabe para onde vai. Testagem rápida em massa e parar, na maior medida possível, só os doentes e os transportadores de doença já identificados. Pesquisa intensiva de tratamentos eficazes. Precisão na informação, rigor nas medidas preventivas individuais, eis os ingredientes que detêm a pandemia e enfraquecem o coronavírus.

O primeiro e maior desafio é, portanto, da imprensa. A pergunta essencial é quanto da reação dos políticos responde aos fatos e quanto à cobertura que ela tem feito, pois é no interstício entre essas duas balizas que prospera o vírus que vai devastando a economia do planeta inteiro, este, sim, de uma letalidade nunca antes vista em tempos de paz ou em tempos de guerra, no mundo antigo ou no mundo moderno.

O desafio está em impedir que o foco da cobertura se desvie da mecânica da progressão da doença para as reações do povo às determinações dos políticos e as dos próprios políticos às decisões de outros políticos, o que nem sempre é fácil de separar. Em outras palavras, no rigor do cuidado das redações em não se deixarem transformar em correias de transmissão de um pânico que se alimenta de si mesmo.

Garantir três horas de palanque por dia para políticos isentos dos efeitos das medidas que baixam disputarem poder uns com os outros na base do “quem fecha mais” é tão seguro, num país com o retrospecto político do Brasil, quanto acender uma tocha para procurar uma agulha num paiol de dinamite.

Não é só no Brasil, aliás. Em todos os países onde a autoridade está desmoralizada pela conflagração ideológica o combate à peste é duplamente problemático. O comportamento das áreas técnicas dos governos e do povo é razoável, mas na ida e na volta as informações têm de passar pelos políticos e pelos seus respectivos “batedores de caixa” na internet e nas redações engajadas. E aí todo cuidado é pouco. Quanto desse empenho todo é luta pelo poder? Quanto é vaidade? Quanto do que dizem e fazem os governadores candidatos e o presidente candidato é fruto de decisões conscienciosas e equilibradas e quanto é precipitação para acusar, direta ou indiretamente, o adversário de omissão? 

As dúvidas são pagas em vidas...

É, de qualquer maneira, uma controvérsia que se desfará por si mesma. Todo o esforço de equilíbrio fiscal de um ano inteiro do ministro Paulo Guedes virou pó na primeira hora da paralisação total da economia mundial. Isso arrebenta com a arrecadação, num quadro que já era de falência geral dos governos estaduais e municipais. Vai faltar dinheiro para pagar polícia e hospital em dois, no máximo, três meses.

O Brasil é o “velhinho” desta epidemia. A economia de pior desempenho numa quadra de prosperidade global. Roído pela privilegiatura, não tem um pingo de gordura de proteção social. No mínimo a metade da população já vinha vivendo da mão para a boca. Uma economia de guerra será agora, e por muito tempo, a realidade de todos.

Não haverá alternativa senão partir para a reforma das reformas. Para Bolsonaro será a última chance de redimir-se de tudo o que não fez e não deixou fazer, embora estivesse autorizado a tanto pela votação maciça que teve. Para seus adversários, a definitiva de provar quanto, de fato, se preocupam com a saúde dos nossos avozinhos. Para o Brasil, como um todo, a de entrar, finalmente, para o rol das democracias, acabando com a privilegiatura medieval, ou mergulhar definitivamente no caos. Não vai ter outra.

JORNALISTA, ESCREVE EM WWW.VESPEIRO.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.