A política dos presidiários

A traição e a falta de lealdade residem em quem abandonou seus princípios e valores, apegando-se unicamente a suas posições de poder.

Denis Lerrer Rosenfield, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2021 | 03h00

O ingresso do presidente Jair Bolsonaro em seu novo partido é revelador do nível em que caiu a política brasileira. Após uma campanha eleitoral contra a “velha política”, contra o “sistema”, clamando por uma renovação com toques religiosos de salvação nacional, eis que o novo “militante” do PL se curva a tudo o que dizia abominar. Qualquer traço de coerência ou de verdade simplesmente se evapora ou, melhor, desaparece, como se nunca tivesse existido. Coroando o ato, seu filho, senador Flávio Bolsonaro, disse em poucas palavras tudo o que este triste evento encerra: discursou contra o ex-presidiário Lula sem atentar, talvez, a que sua fala ocorria no partido de um ex-presidiário, antigo companheiro dos petistas.

Em seu livro, o ex-juiz Sérgio Moro relata que o presidente Bolsonaro se regozijou com a “libertação” de Lula, expondo, para quem quiser ver, a afinidade que os une, apesar das aparências discordantes. Enfim, seu inimigo figadal estaria “livre” para enfrentá-lo eleitoralmente, numa polarização altamente benéfica para ambos os contendores. Numa encenação que lhe é própria, o atual presidente vociferou contra as “mentiras” de Moro, mostrando o quão incomodado está com um candidato que pode colocar o seu favoritismo em questão. Diria que, para o seu adversário, quanto mais golpes receber, melhor será, na medida em que atrairá para si a atenção de todos os que estão preocupados com a moralidade na política.

As pesquisas de opinião têm retratado que a luta contra a corrupção teria deixado de ser uma prioridade nacional. Pudera, com tantos meliantes governando o País em tempos recentes, estava se produzindo um certo fastio, porque ninguém estava conseguindo hastear esta bandeira. O PT e Lula abandonaram esta pauta, visto que suas administrações se caracterizaram pelo mensalão, pelo petrolão e outros “ãos”, com seus dirigentes vagando pelos presídios do País. Bolsonaro, por sua vez, abandona esta bandeira mais preocupado em proteger a sua família. Nesse sentido, pode-se dizer que o retrato das pesquisas é o de uma situação tida, digamos, como “natural”, numa normalidade do tipo aterradora.

Com a entrada no jogo eleitoral de um símbolo da Lava Jato, da luta contra a corrupção, que conseguiu condenar e colocar na prisão figurões do mundo empresarial e político, ressurge uma demanda adormecida, a da ética na política, uma bandeira que tinha sido jogada no lixo. A fome, a miséria, a doença, a morte, a falta de emprego e de expectativa são o dia a dia da imensa maioria de nossa população, algo contrastante com o triste espetáculo de emendas parlamentares, inação governamental, discursos vazios e mentiras descaradas, exibindo o quão pouco de solidariedade, de honestidade e de lisura orientam boa parte dos políticos e governantes. Para uma pessoa normal, nosso panorama é propriamente vergonhoso. Quem pensou que esta pauta tinha passado, passou ao largo da política. O rápido crescimento da candidatura de Sérgio Moro bem mostra isso.

Contribuição decisiva para que a indignação moral cresça neste país, ganhando inclusive um contorno político, tem sido dada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que, por várias “razões”, têm anulado as condenações da Lava Jato e “libertado” condenados. Subitamente, um ministro, apoiado ou não pelo colegiado, após vários anos “descobre” uma falha processual ou formal – seja chamada de “juiz natural”, seja que a Justiça Federal não seria a competente, mas a Justiça Eleitoral. Provas são jogadas no lixo, como se nada tivesse acontecido. Os “anulados” – na verdade, “absolvidos” – por este passe de mágica tornam-se politicamente “inocentes”. É o milagre da ressurreição eleitoral. Consagra-se a impunidade dos criminosos por ministros que se apresentam como “garantistas”. Aliás, garantistas de quê? De que crime não é mais crime?

A despeito de tantas decisões das mais altas Cortes voltadas contra a Lava Jato, a pauta da luta contra a corrupção ganhou força política. Quanto mais batem nesta operação judicial, mais ela cresce na opinião pública. Tentam vários ministros reescrever a história, como se fossem novos escribas, quando, na verdade, estão trazendo uma outra história à tona, a de que o crime deve ser punido, a de que a ética na política continua vigorando, a de que a Justiça deve valer para todos, e não apenas para os pobres e desfavorecidos.

Muitos ministros, secretários e assessores foram abandonando o atual governo. Alguns deles foram considerados traidores por saírem atirando. Ora, sair atirando é somente um modo de desqualificar a pessoa, porque o que de fato fizeram foi criticar e apresentar as razões de suas discordâncias. A verdadeira traição é a dos que descumpriram o prometido, mostrando que suas palavras de nada valiam, sendo meros instrumentos demagógicos e eleitorais. A traição e a falta de lealdade residem em quem abandonou seus princípios e valores, apegando-se unicamente a suas posições de poder. Eis o que estará, também, em jogo nas próximas eleições.

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PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFRGS. E-MAIL: DENISROSENFIELD@TERRA.COM.BR

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