A política externa e as eleições

Num mundo como o de hoje, não é mais possível estabelecer uma fronteira nítida entre o que é interno e o que é internacional.

Sergio Amaral, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2022 | 03h00

Os temas de política externa raramente recebem destaque em campanhas eleitorais, inclusive para presidente da República. Isso é em parte compreensível. País de dimensões continentais, seus conflitos de fronteira foram, em sua maioria, negociados pelo Barão do Rio Branco. As grandes conflagrações mundiais não chegaram a semear discórdia entre nós. Desta vez, no entanto, poderá ser diferente. Os equívocos cometidos e as oportunidades perdidas pela diplomacia das trevas que se instalou no País nos primeiros anos do atual governo demandam um amplo debate para entender os desafios, delinear correções e novos rumos. As próximas eleições serão uma oportunidade para isso.

Os Estados Unidos são, há várias décadas, um parceiro importante do Brasil, em vários campos: no comércio e nos investimentos, na cooperação empresarial e nas muitas afinidades entre nossas sociedades. Não obstante, foi exatamente o país escolhido por nosso governo para criticar decisões internas e para questionar o resultado das eleições norte-americanas, como se já não bastassem as divergências explícitas em relação a um dos programas centrais do candidato eleito nos Estados Unidos, a saber, o clima. Até hoje, os dois presidentes não tiveram uma única entrevista, nem mesmo uma conversa por telefone, o que é inédito nas relações entre Brasília e Washington.

A China distinguiu o Brasil como um parceiro estratégico global. O comércio e os investimentos entre os dois países floresceram. Mas, no que parece ter se tonado uma praxe no Brasil, as autoridades chinesas foram alvo das provocações e manifestações de hostilidade, inclusive de representantes do mundo oficial brasileiro.

Desde a Rio 92, o compromisso do Brasil para com o clima se havia transformado num dos pilares da diplomacia e a plataforma de uma bem recebida liderança mundial do País. A reversão nas políticas ambientais brasileiras, sem um motivo plausível, no entanto, contribuiu para o isolamento do País e para a suspensão de recursos para financiar projetos brasileiros. A União Europeia anunciou regras mais severas para a importação de produtos brasileiros, tais como soja, carne e café. A Secretaria do Tesouro norte-americana, por sua vez, já antecipou que a redução do desmatamento na Amazônia passou a ser um requisito para a adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Por fim, o mais inquietante desdobramento de uma sucessão de equívocos é ilustrado por notícias recentes sobre a aproximação entre a China e a Argentina. A primeira delas registra que o intercâmbio comercial entre os dois países já se tornou mais relevante para a Argentina do que o comércio com o Brasil. A segunda chama a atenção para a adesão da Argentina à iniciativa do programa chinês Um Cinturão, Um Caminho. E a última é o contrato de construção da central nuclear de Atucha III, com financiamento chinês e a participação de empresas chinesas. Por ironia da história, a cooperação nuclear Brasil-Argentina havia sido o ponto de partida da reaproximação entre Buenos Aires e Brasília e um dos alicerces do Mercosul.

Cada um destes fatos isoladamente não teria grande significado. Tomados em conjunto, no entanto, sinalizam uma aposta da China na Argentina, a opção da Argentina pela China e um erro estratégico do Brasil, decorrente de sua indiferença em relação à Argentina e ao próprio Mercosul. É preciso lembrar que o processo de integração econômica é, antes de tudo, um ato político, ainda que com um substrato econômico, como afirmava a Declaração Schuman, em 1950, o ato fundador do Mercado Comum Europeu. Além disso, o progresso da integração não pode ser aferido unicamente por decimais da tarifa externa comum, sem levar em conta a interpenetração das economias e a harmonização de suas regras, assim como as convergências em vários outros campos. A flexibilização proposta pelo Uruguai e apoiada pelo Brasil nada mais é do que o “começo do fim”, como tive a oportunidade de sublinhar, num artigo publicado no Estado no ano passado. O Brasil, de líder da integração sul-americana, transformou-se num caudatário do Uruguai. É bem verdade, o Mercosul precisa há tempo de uma reforma em profundidade, mas para reformar não é preciso demolir um dos pilares centrais do Tratado de Assunção.

Num mundo globalizado e interdependente, não é mais possível estabelecer uma fronteira nítida entre o que é interno e o que é internacional. A agenda global reverbera nas questões locais. O desmatamento da Amazônia é uma preocupação da comunidade internacional que coincide com as aspirações de milhões de brasileiras e brasileiros, convencidos hoje de que a proteção da floresta e dos povos indígenas é um dever de todos nós.

Os temas globais não são, como pareciam ser antes, parte de uma longínqua agenda externa, mas expressam igualmente interesses e preocupações das brasileiras e brasileiros que merecem ser debatidas neste encontro maior da democracia, que são as eleições.

*

FOI EMBAIXADOR EM WASHINGTON

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.