A ressurreição do irreal

Sabemos, mas não aprendemos e, assim, nunca corrigimos o erro

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2020 | 03h00

A peste já chegou ao palácio, mas só o rei não vê nem acredita que exista.

A pandemia do coronavírus não é comparável a nenhuma das anteriores e é mais trágica do que todas elas. Nem a peste bubônica da Idade Média ou a “gripe espanhola”, cem anos atrás, ao final da Grande Guerra de 1914-18, foram tão terríveis. Agora, tudo facilita a proliferação - das grandes concentrações urbanas aos transportes rápidos (aviões, automóveis e navios), inexistentes antes.

Mais, ainda: antes não havia a poluição ambiental de hoje, nem o horror do monóxido de carbono, que nós incentivamos com nossos carros e viagens.

Por isso o coronavírus nos faz viver a maior crise sanitária da humanidade, num mundo que, paradoxalmente, pensava conhecer “tudo” sobre contaminação e contágio. A conclusão: sabemos, mas não aprendemos e, assim, nunca corrigimos o erro.

Sim, esta é a maior crise sanitária da humanidade. A velocidade das mortes arrebenta todos os padrões de convivência social e nos obriga a voltar (em parte) a ser insociáveis “homens da caverna” e nos isolarmos num gesto solidário.

A realidade nunca é suficiente quando a ignorância predomina. Ou quando menosprezamos a ameaça em si, abrindo caminho à invencionice e propalando a mentira. E toda mentira é um erro que se torna crime ao ser propagada pelo poder político. Mesmo se for cercado do que pareça “boa intenção”, é (no mínimo) crime por ignorância crassa.

A reiterada posição de Bolsonaro de ignorar o perigo do novo coronavírus não soa, apenas, como mero desinteresse por uma situação que une cientistas e estadistas num idêntico diagnóstico. O presidente do Brasil está na contramão de todas as medidas sanitárias que, no passado, os governantes impuseram ao País. Sim, “impuseram”, pois em momentos de crise aguda cabe ao Estado intervir drasticamente para evitar a hecatombe e sanar o horror. Senão, para que servem os governos? Para proibir rinha de galo, jogo do bicho e radar nas estradas?

Em 1904, no auge da epidemia de varíola no Rio de Janeiro, o governo do presidente Rodrigues Alves instituiu a vacina obrigatória (exigida para ter emprego, viajar e até para casar, num tempo em que casamento era regra) por sugestão de Osvaldo Cruz, nosso cientista maior, diretor de Saúde Pública da então capital da República.

Mas a ignorância e o preconceito da época fizeram o populacho protestar, “ofendido” por expor o braço nu a cicatrizes. O protesto chegou às ruas da então maior cidade do país e passou à História como “a revolta da vacina”, com mortos, feridos e presos.

Ignorar e ser ignorante é mais fácil do que entender o novo e, assim, a dimensão da revolta fez o governo suspender a obrigatoriedade da vacina.

Agora o Brasil vive o oposto do distante 1904, mais de um século atrás. Hoje o presidente da República chefia o grupelho que ignora o alerta da ciência e tem incitado o povo a não se proteger da contaminação da nova peste e a desafiá-la em concentrações de rua.

Num esforço de benevolência, podemos entender que Bolsonaro se julgue “livre” da nova peste por ter sido “atleta” na juventude, como ele disse. Não por acaso, sua nota mais alta na Escola Militar foi em Educação Física, não noutras disciplinas, e ajudou a fortalecer seu sistema imunológico. Mas o nível de compreensão, aparentemente, ficou abaixo da capacidade físico-respiratória.

Muitos ao seu redor no Palácio do Planalto contraíram o novo vírus, menos ele. Isso, porém, demonstra apenas um caso individual, que não define a nova peste como “gripezinha”.

Ainda na contramão do ocorrido em 1904, hoje, Bolsonaro faz da pandemia arma da baixa política e, por exemplo, se atira contra o governador de São Paulo (por sugerir precauções e cuidados) sob pretexto de que Doria Jr. busca apenas suceder-lhe na Presidência da República. O presidente imita o grupelho militar que em 1904 tentou um golpe de Estado a pretexto da “revolta da vacina”. 

A assertiva de que a História “só se repete como farsa” continua vigente e se adapta ao momento atual do Brasil por tudo o que diz e faz Jair Bolsonaro.

A feitiçaria “milagreira” com que ele encara o novo vírus levou o País à situação inusitada de a Justiça ter de proibir ou interditar atos ou manifestações do presidente da República que põem em risco a saúde, como ocorreu agora. Ou que até o Facebook e o YouTube tenham retirado as postagens de Bolsonaro por contrariarem a defesa da vida.

Em Roma, o papa Francisco pediu que ninguém fosse à Praça de São Pedro para a bênção Urbi et Orbi, que proferiu sem assistentes. Aqui, porém, Bolsonaro inventa que o vírus não chega a igrejas ou outras aglomerações.

As carreatas absurdas em algumas cidades, de apoio à perigosa lenga-lenga do presidente (e que ele mesmo incentivou) mostram um horror superior à peste - a ressurreição do irreal. Os panelaços foram a resposta.

JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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